{"id":36685,"date":"2019-03-29T16:45:54","date_gmt":"2019-03-29T19:45:54","guid":{"rendered":"http:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/?p=36685"},"modified":"2019-04-05T15:29:31","modified_gmt":"2019-04-05T18:29:31","slug":"o-curto-mandato-de-moacir-longo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/o-curto-mandato-de-moacir-longo\/","title":{"rendered":"O curto mandato de Moacir Longo"},"content":{"rendered":"<span class=\"span-reading-time rt-reading-time\" style=\"display: block;\"><span class=\"rt-label rt-prefix\">Tempo estimado de leitura: <\/span> <span class=\"rt-time\"> 19<\/span> <span class=\"rt-label rt-postfix\">minutos<\/span><\/span><p><strong>Fausto Salvadori |<\/strong> <a href=\"mailto:fausto@saopaulo.sp.leg.br\">fausto@saopaulo.sp.leg.br<\/a><\/p>\n<h6><strong>Vers\u00e3o atualizada de reportagem originalmente publicada em dezembro de 2011<\/strong><\/h6>\n<p>Muitos vereadores n\u00e3o voltaram para casa naquela ter\u00e7a-feira. Preferiram passar a noite de 31 de mar\u00e7o de 1964 no interior do Palacete Prates, no Vale do Anhangaba\u00fa, onde funcionava a sede da C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo, acompanhando as not\u00edcias sobre a movimenta\u00e7\u00e3o de tropas do Ex\u00e9rcito que pretendiam derrubar o presidente Jo\u00e3o Goulart. Muitos temiam o in\u00edcio de uma guerra civil.<\/p>\n<p>De todos os vereadores, o oper\u00e1rio, jornalista e militante comunista Moacir Longo \u00e9 o que tinha mais motivos para se preocupar com a queda do presidente. Ele sabia que, se os militares tomassem o poder, corria o risco de sair do Palacete Prates direto para a cadeia.<\/p>\n<p>Enquanto a noite avan\u00e7ava, Longo conversou com Marcos M\u00e9lega, l\u00edder da Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Nacional (UDN) e conhecido por seu anticomunismo, sobre as movimenta\u00e7\u00f5es dos militares. Apesar das diverg\u00eancias ideol\u00f3gicas, Longo se dava bem com todos os colegas de verean\u00e7a. O conservador abriu o jogo com o comunista. M\u00e9lega contou-lhe que, sim, o golpe militar estava em andamento e os revoltosos pretendiam criar um governo paralelo sediado em Minas Gerais, para o qual pediriam reconhecimento do governo dos Estados Unidos e, se fosse preciso, apoio militar para enfrentar a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>\u201cEles estavam preparados para uma guerra civil e achavam que do nosso lado tamb\u00e9m est\u00e1vamos\u201d, recorda Longo, mais de cinco d\u00e9cadas depois. E ri. Preparados? Eles n\u00e3o estavam.<\/p>\n<p>A movimenta\u00e7\u00e3o que levou ao golpe de Estado havia come\u00e7ado na madrugada daquela ter\u00e7a-feira, em Juiz de Fora, no interior de Minas Gerais, quando um general, Olympio Mour\u00e3o Filho, ainda vestido de pijama e roup\u00e3o de seda vermelha \u2013 \u201cposso dizer com orgulho de originalidade: creio ter sido o \u00fanico homem no mundo (pelo menos no Brasil) que desencadeou uma revolu\u00e7\u00e3o de pijama\u201d, escreveria, mais tarde, em suas mem\u00f3rias \u2013, telefonou para militares e pol\u00edticos comunicando que se preparava para marchar com suas tropas em dire\u00e7\u00e3o ao Rio de Janeiro para derrubar o presidente Jo\u00e3o Goulart, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).<\/p>\n<div class=\"infografico-desktop\">\n[aesop_chapter  bgtype=&#8221;img&#8221; full=&#8221;on&#8221; img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2019\/03\/Moacir-diploma.jpg&#8221; video_autoplay=&#8221;play_scroll&#8221; bgcolor=&#8221;#888888&#8243; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221;]\n<\/div>\n<div class=\"infografico-mobile\">\n\n[aesop_image  img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2019\/03\/Moacir-diploma.jpg&#8221; panorama=&#8221;on&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; captionposition=&#8221;center&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<\/div>\n<p class=\"legenda\">Longo em casa, com o diploma de vereador Cr\u00e9dito: Marcelo Ximenez\/CMSP<\/p>\n<p>Duas semanas antes, em 13 de mar\u00e7o, Jango, como era conhecido, havia anunciado, em um discurso na Central do Brasil, no Rio, o lan\u00e7amento de um projeto de \u201creformas de base\u201d, que previam itens como reforma agr\u00e1ria e urbana. Eram propostas que agradavam aos trabalhadores, mas incomodavam as elites empresariais brasileiras e tamb\u00e9m despertavam a desconfian\u00e7a do governo norte-americano, que via o risco de Goulart \u201centregar o Pa\u00eds aos comunistas\u201d. Enquanto militares, pol\u00edticos e empres\u00e1rios tra\u00e7avam planos para a derrubada de Jango, o presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson, autorizava o lan\u00e7amento da Opera\u00e7\u00e3o Brother Sam, que previa o envio de um porta-avi\u00f5es ao litoral brasileiro para auxiliar os revoltosos. Mal sabiam que nada disso seria necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ao longo do dia 31, \u00e0 medida que as tropas de Mour\u00e3o Filho se aproximavam do Rio, o movimento golpista ia ganhando cada vez mais ades\u00f5es. No final da noite, quando os vereadores paulistanos se movimentavam no Palacete Prates, chegou a not\u00edcia de que o general Amaury Kruel, comandante do II Ex\u00e9rcito, respons\u00e1vel pelas \u00e1reas de S\u00e3o Paulo e Mato Grosso, havia aderido ao golpe. Era um apoio decisivo.<\/p>\n<p>O presidente eleito Jo\u00e3o Goulart caiu sem resistir. No dia 1\u00ba de abril, temendo ser capturado pelos militares golpistas, viajou do Rio de Janeiro para Bras\u00edlia e de l\u00e1 para Porto Alegre. Na madrugada do dia 2, o senador Auro Moura Andrade, presidente do Congresso, aproveitou-se da aus\u00eancia de Jango para declarar vaga a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Em seu lugar, assumiu o presidente da C\u00e2mara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, que, duas semanas depois, daria lugar a Humberto de Alencar Castello Branco, o primeiro de uma linhagem de generais que passaria a comandar o Brasil ao longo dos 21 anos seguintes. O reconhecimento de que o senador desrespeitou a Constitui\u00e7\u00e3o, ao declarar vaga a Presid\u00eancia enquanto o presidente ainda estava no Pa\u00eds, viria somente 39 anos depois, quando uma <a href=\"https:\/\/www2.camara.leg.br\/legin\/fed\/rescon\/2013\/resolucao-4-28-novembro-2013-777488-publicacaooriginal-142050-pl.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">resolu\u00e7\u00e3o<\/a> do Congresso anulou simbolicamente a decis\u00e3o de 1964, \u201cvisando <a href=\"https:\/\/legis.senado.leg.br\/sdleg-getter\/documento?dm=3521786&amp;ts=1553280520945&amp;disposition=inline\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">tornar clara<\/a> a manobra golpista levada a cabo no plen\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>A mil quil\u00f4metros dali, os acontecimentos de Bras\u00edlia aumentavam a tens\u00e3o no Palacete Prates, onde os vereadores permaneciam reunidos. Do lado de fora, militares amea\u00e7avam invadir o pr\u00e9dio e prender os vereadores de que n\u00e3o gostavam, conforme o relato de Longo. \u201cA\u00ed o Luiz Domingues de Castro, que era o presidente da Casa, falou: \u2018Se isso acontecer, eu entrego as chaves da C\u00e2mara ao comandante do golpe em S\u00e3o Paulo\u2019\u201d, conta. O blefe deu certo. Como naquele dia os militares ainda tentavam disfar\u00e7ar seu golpe de Estado como uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d, preferiram evitar um confronto direto com o Legislativo.<\/p>\n<p>Para ludibriar a vigil\u00e2ncia dos militares que rondavam o Prates e salvar da pris\u00e3o Moacir Longo e Odon Pereira da Silva (PTB), os vereadores mais visados por conta da milit\u00e2ncia comunista, a C\u00e2mara Municipal montou uma opera\u00e7\u00e3o digna de 007, personagem que emplacava um filme por ano nas telas da \u00e9poca. Utilizaram para isso os autom\u00f3veis da Casa \u2013 que na \u00e9poca eram apenas dois, destinados ao presidente e ao primeiro-secret\u00e1rio. Passaram o 1\u00ba de abril fazendo v\u00e1rias sa\u00eddas com os dois carros, sempre cheio de pessoas, para n\u00e3o chamar aten\u00e7\u00e3o. Numa dessas sa\u00eddas, j\u00e1 na madrugada do dia 2, enquanto o governo democr\u00e1tico chegava ao fim em Bras\u00edlia, Longo e Pereira conseguiram deixar o Pal\u00e1cio sem chamar a aten\u00e7\u00e3o das autoridades.<\/p>\n<p>Longo refugiou-se na casa de um m\u00e9dico, companheiro do Partido Comunista Brasileiro (PCB), no Sumar\u00e9, regi\u00e3o oeste da capital. Mas nunca retornaria \u00e0 C\u00e2mara como vereador. Pediu licen\u00e7a do cargo, pois sabia que os militares iriam ca\u00e7\u00e1-lo \u2013 em sentido figurado \u2013 al\u00e9m de cass\u00e1-lo \u2013 literalmente.<\/p>\n[aesop_video  src=&#8221;youtube&#8221; id=&#8221;bBBOx6lG4T0&#8243; width=&#8221;100%&#8221; align=&#8221;center&#8221; disable_for_mobile=&#8221;off&#8221; loop=&#8221;off&#8221; controls=&#8221;on&#8221; autoplay=&#8221;on&#8221; mute=&#8221;on&#8221; viewstart=&#8221;on&#8221; viewend=&#8221;on&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221;]\n<h3>\u2018REGIME DE TERROR\u2019<\/h3>\n<p>A ca\u00e7ada aos vereadores j\u00e1 tinha come\u00e7ado. Logo ap\u00f3s a consuma\u00e7\u00e3o do golpe militar, um grupo de aproximadamente dez vereadores foi obrigado a comparecer no Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops) para \u201cprestar esclarecimentos\u201d. Longo, que estava escondido, n\u00e3o foi. Outros n\u00e3o tiveram op\u00e7\u00e3o: foram presos em casa e levados \u00e0 delegacia. Quase todos foram liberados em poucas horas, com exce\u00e7\u00e3o de Odon Pereira da Silva, que s\u00f3 conseguiu sair do Dops ap\u00f3s a press\u00e3o de outros vereadores junto ao delegado.<\/p>\n<p>Um dos vereadores detidos nesse primeiro ataque da ditadura rec\u00e9m-instalada, <a href=\"http:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes-anteriores\/revista-apartes\/numero-17\/perfil-david-lerer\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">David Lerer<\/a>, do Partido Socialista Brasileiro (PSB), conta que ouviu da boca do coronel Rubens Resstel, encarregado de conduzir o seu inqu\u00e9rito policial militar (IPM), que o governo j\u00e1 tinha decidido pela cassa\u00e7\u00e3o de seu colega Moacir Longo. \u201cVereador, na C\u00e2mara Municipal voc\u00eas s\u00e3o dois do PSB. N\u00f3s j\u00e1 vamos pegar um, comunista conhecido\u201d, ouviu do militar, que acrescentou: \u201cN\u00e3o queremos acabar com o partido, o presidente Castello Branco \u00e9 um democrata, o senhor concorda? Portanto est\u00e1 liberado, mas aten\u00e7\u00e3o. Na pr\u00f3xima o senhor n\u00e3o escapa\u201d.<\/p>\n<p>A movimenta\u00e7\u00e3o feita pelos vereadores no Palacete Prates pretendia ser uma \u201cvig\u00edlia democr\u00e1tica\u201d, segundo Longo, um gesto de resist\u00eancia a favor do governo democraticamente eleito. Em dois dias, contudo, o golpe militar j\u00e1 havia se consolidado. Reunidos no Sal\u00e3o Nobre, o presidente da Casa e parte dos l\u00edderes das bancadas debateram qual deveria ser, ent\u00e3o, \u201ca posi\u00e7\u00e3o da Edilidade Paulistana\u201d diante dos acontecimentos. Decidiram pelo apoio ao golpe.<\/p>\n<p>Uma comiss\u00e3o de vereadores foi at\u00e9 o gabinete do general Amaury Kruel, onde deixou um of\u00edcio cheio de elogios, assinado pela Mesa Diretora da C\u00e2mara Municipal, que declarava \u201ca mais irrestrita solidariedade\u201d ao militar golpista, a quem chamava de \u201cilustre cabo de guerra\u201d. O senador Moura Andrade tamb\u00e9m recebeu um of\u00edcio ainda mais entusiasmado, em que os vereadores saudavam a \u201cimorredoura li\u00e7\u00e3o de civismo e patriotismo\u201d dada ao derrubar o governo e afirmavam sua \u201cf\u00e9 num Brasil crist\u00e3o, alicer\u00e7ado no regime democr\u00e1tico, onde n\u00e3o poder\u00e3o medrar ideologias delet\u00e9rias da \u00edndole do comunismo pag\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>As comemora\u00e7\u00f5es pelo golpe militar continuaram na primeira sess\u00e3o realizada ap\u00f3s o queda de Goulart, em 6 de abril. Nesse dia, al\u00e9m da sess\u00e3o ordin\u00e1ria, os vereadores convocaram uma \u201csess\u00e3o especial\u201d destinada a comemorar a chegada dos militares ao poder, \u201cessa memor\u00e1vel vit\u00f3ria que h\u00e1 de ficar gravada nos nossos cora\u00e7\u00f5es para todo o sempre\u201d. Dos 45 vereadores, 29 manifestaram-se naquele dia: 24 declararam apoio ao golpe, tr\u00eas falaram de outros assuntos e apenas dois criticaram a a\u00e7\u00e3o militar \u2014 Jo\u00e3o Carlos Meirelles, do Partido Democrata Crist\u00e3o (PDC), e David Lerer.<\/p>\n<div class=\"infografico-desktop\">\n[aesop_chapter  bgtype=&#8221;img&#8221; full=&#8221;on&#8221; img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2019\/03\/Moacir_2.jpg&#8221; video_autoplay=&#8221;play_scroll&#8221; bgcolor=&#8221;#888888&#8243; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221;]\n<\/div>\n<div class=\"infografico-mobile\">\n\n[aesop_image  img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2019\/03\/Moacir_2.jpg&#8221; panorama=&#8221;on&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; captionposition=&#8221;center&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<\/div>\n<p class=\"legenda\">A passagem de Longo pela C\u00e2mara durou apenas tr\u00eas meses \/ Cr\u00e9dito: \u00c2ngelo Dantas\/CMSP<\/p>\n<p>Nos meses seguintes, ainda que os Anais da Casa tenham registrado algumas cr\u00edticas aos militares, a maioria delas vindas de Lerer, a maioria preferia elogiar o novo regime ou falar de outras coisas. Uma das falas mais contundentes registradas contra a autoproclamada \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d acabou vindo ap\u00f3s o governo do presidente Castello Branco divulgar, em 13 de junho, a lista de cassados com base no Ato Institucional n\u00ba 1. Um dos nomes, como esperado, era a do vereador Moacir Longo. O assunto foi ignorado nos debates em Plen\u00e1rio do Palacete Prates. A \u00fanica men\u00e7\u00e3o \u00e0 cassa\u00e7\u00e3o partiu de Lerer, em 17 de junho. Na tribuna, o companheiro de bancada de Longo leu uma carta enviada pelo colega. \u201cO regime de terror implantado pelo Ato Institucional, editado por aqueles que se julgam no direito de tutelar a Na\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem futuro\u201d, atacava a carta-discurso de Longo, em uma das mais duras manifesta\u00e7\u00f5es contra o regime militar de 1964-1985 registradas no Parlamento paulistano durante o per\u00edodo ditatorial.<\/p>\n<p>Longo n\u00e3o exagerava ao chamar o governo daqueles dias de \u201cregime de terror\u201d. Embora o regime ainda n\u00e3o tivesse entrado em sua fase mais dura, que teria in\u00edcio em 13 de dezembro de 1968, com a decreta\u00e7\u00e3o do Ato Institucional n\u00ba 5 (AI-5), as mortes, torturas e persegui\u00e7\u00f5es j\u00e1 estavam na ordem do dia. Em <em>A ditadura envergonhada, <\/em>o jornalista Elio Gaspari contabiliza 13 mortes nos nove primeiros meses do governo militar, al\u00e9m de 2 mil funcion\u00e1rios p\u00fablicos que foram demitidos ou aposentados compulsoriamente e 386 pessoas que tiveram seus mandados cassados e\/ou perderam os direitos pol\u00edticos, entre 1964 e 1966. Os casos de tortura se contavam \u00e0s centenas, v\u00e1rios deles denunciados no <em>Correio da Manh\u00e3<\/em> \u2014 curiosamente, um jornal que, em 31 de mar\u00e7o, havia apoiado a derrubada de Jo\u00e3o Goulart.<\/p>\n<p>Encerrada a leitura da carta de Longo, nenhum vereador tocou mais no assunto. A sess\u00e3o prosseguiu como se nada tivesse acontecido. \u201cA C\u00e2mara Municipal aceitou sem protesto a cassa\u00e7\u00e3o, assumindo papel de total submiss\u00e3o ao arb\u00edtrio\u201d, afirma o <a href=\"https:\/\/www.prefeitura.sp.gov.br\/cidade\/secretarias\/upload\/direitos_humanos\/RelatorioCMV_DVD(1).pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o da Mem\u00f3ria e Verdade da Prefeitura de S\u00e3o Paulo<\/a>, publicado em 2016.<\/p>\n<p>\u201cLi a carta com muito orgulho\u201d, relembra Lerer. Ele lamenta que a cassa\u00e7\u00e3o de Longo o tenha impedido de conhecer melhor o colega de partido. \u201cSempre tivemos pouco contato. Tomamos posse em janeiro e teve a revolu\u00e7\u00e3o em mar\u00e7o. N\u00e3o deu tempo nem de ficar amigo, de tomar uma cerveja juntos\u201d, diz.<\/p>\n<h3>COMUNISTA DE CARTEIRINHA<\/h3>\n<p>Persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o era uma novidade para Longo. Para ser eleito vereador, meses antes, precisara recorrer de uma decis\u00e3o da Justi\u00e7a eleitoral que havia impugnado sua candidatura. \u201cO Dops informava \u00e0 Justi\u00e7a quem tinha cadastro de comunista. Eu tinha. E era volumoso\u2026\u201d, conta Longo, orgulhoso do seu curr\u00edculo de \u201crevolucion\u00e1rio profissional\u201d iniciado em 1945, quando era um oper\u00e1rio magrelo rec\u00e9m-chegado do interior que, mesmo sem ter idade para votar, participava das elei\u00e7\u00f5es distribuindo folhetos de Iedo Fi\u00faza, candidato do PCB \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Nascido em 5 de maio de 1930, em Taquaritinga, no interior de S\u00e3o Paulo, filho de imigrantes italianos e espanh\u00f3is, Longo come\u00e7ou a trabalhar aos dez anos, na lavoura. Seu pai, que trabalhava no com\u00e9rcio de caf\u00e9, foi um comerciante \u201crelativamente pr\u00f3spero\u201d at\u00e9 a quebra da Bolsa de Valores, em 1929, lev\u00e1-lo \u00e0 fal\u00eancia. Depois disso, o casal, com seus 13 filhos, foi trabalhar na ro\u00e7a.<\/p>\n<p>Aos 15 anos, mudou-se com a fam\u00edlia para a capital paulista, onde a fam\u00edlia se tornou oper\u00e1ria. \u201cMeu primeiro emprego na cidade foi numa f\u00e1brica de tamancos\u201d, lembra Longo. Influenciado pelo pai, comunista de carteirinha, filiou-se em 1946 ao PCB, num dos breves per\u00edodos em que o partido esteve legalizado. Em maio do ano seguinte, contudo, o registro do partido foi cassado. Liberdade partid\u00e1ria n\u00e3o era algo que cabia nos marcos da <a href=\"http:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes-anteriores\/revista-apartes\/numero-3-novembro2013\/no03-uma-correcao-na-historia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">limitada democracia da \u00e9poca<\/a>. \u201cO regime pol\u00edtico que passou a vigorar em janeiro de 1946, embora inscrito nos marcos da denominada democracia liberal, fundou-se no terrorismo de Estado, na nega\u00e7\u00e3o das garantias individuais, na banaliza\u00e7\u00e3o da elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica de opositores e na supress\u00e3o da liberdade de organiza\u00e7\u00e3o dos setores populares \u2013 especialmente os sindicatos e o PCB\u201d, afirma o jornalista Pedro Estevam da Rocha Pomar no livro <em>A Democracia intolerante: Dutra, Adhemar e a repress\u00e3o ao Partido Comunista (1946-1950)<\/em> (Imprensa Oficial, 2002).<\/p>\n<div id=\"attachment_26513\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2019\/03\/Moacir_1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-26513\" class=\"wp-image-26513 size-full\" src=\"https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2019\/03\/Moacir_1.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"800\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-26513\" class=\"wp-caption-text\">Longo diante do Pal\u00e1cio Anchieta, sede da CMSP, onde atuou por tr\u00eas meses \/ Cr\u00e9dito: \u00c2ngelo Dantas\/CMSP<\/p><\/div>\n<p>Jogado na ilegalidade, o PCB fechou sedes e perdeu quase 70% dos seus filiados, segundo Longo. Ele e o pai continuaram na milit\u00e2ncia, que tinha se tornado mais dura. \u201cA\u00ed a luta adquiriu car\u00e1ter diferente, porque o partido estava na clandestinidade e come\u00e7aram as persegui\u00e7\u00f5es\u201d, lembra. Uma das estrat\u00e9gias usadas pelos comunistas foi o de concorrer por outras siglas, mas nem isso evitava a persegui\u00e7\u00e3o das autoridades. Em 1947, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) cassou os registros de 15 vereadores comunistas \u2013 ou suspeitos de pertencer ao PCB \u2013 que haviam sido eleitos pelo Partido Social Trabalhista (PST), entre elas aquela que se tornaria a primeira vereadora paulistana, <a href=\"http:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes-anteriores\/revista-apartes\/numero-6-marco-abril2014\/ela-nao-teve-medo-da-vida\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Elisa Kauffmann Abramovich<\/a>.<\/p>\n<p>Longe da arena eleitoral, Longo lutava no movimento sindical, reivindicando melhores sal\u00e1rios, descanso semanal remunerado e abono de Natal (o atual 13\u00ba sal\u00e1rio). Chegou a perder o emprego de ajustador mec\u00e2nico numa metal\u00fargica por participar de uma greve. \u201cOs movimentos sociais eram duramente reprimidos, n\u00e3o era essa moleza de hoje\u201d, recorda. Foi preso pela primeira vez em 12 de dezembro de 1949, ao pichar em um muro \u201cViva o camarada St\u00e1lin, campe\u00e3o da paz\u201d.<\/p>\n<p>Aos 21 anos, por decis\u00e3o do partido, afastou-se do trabalho como oper\u00e1rio e passou a ser remunerado para se dedicar exclusivamente \u00e0 milit\u00e2ncia, tornando-se o que os comunistas chamavam de \u201crevolucion\u00e1rio profissional\u201d. Come\u00e7ou como secret\u00e1rio de propaganda no comit\u00ea distrital do Ipiranga (zona sul da capital) e, nove anos depois, foi eleito presidente municipal. \u201cGaroto ainda, cara de moleque, franzino, fumando dois ma\u00e7os de cigarro por dia, assumindo a dire\u00e7\u00e3o do partido no principal munic\u00edpio do Pa\u00eds\u2026\u201d, relembra Longo no document\u00e1rio <em>O Longo caminho de Moacir<\/em>, produzido pela Funda\u00e7\u00e3o Astrojildo Pereira.<\/p>\n<p>Aprendeu a fazer jornalismo na pr\u00e1tica das reda\u00e7\u00f5es dos jornais comunistas, como <em>Not\u00edcias de Hoje<\/em> e <em>Voz Oper\u00e1ria<\/em>, que usavam a m\u00e3o de obra de \u201crep\u00f3rteres populares\u201d \u2014 militantes com voca\u00e7\u00e3o para escrita que eram chamados a escrever sobre tudo, dos problemas dos bairros aos campeonatos de futebol de v\u00e1rzea. \u201cEram jornais que tinham poucos recursos e nada de an\u00fancios, ent\u00e3o a gente tinha que escrever muito\u201d, recorda.<\/p>\n<p>O moleque franzino tamb\u00e9m presidiu a Uni\u00e3o da Juventude Comunista e viajou \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica para um curso de sociologia pol\u00edtica, ao lado de \u201cuma turma da pesada\u201d que inclu\u00eda quadros como o historiador Jacob Gorender e as lideran\u00e7as Carlos Marighella e Maur\u00edcio Grabois. \u201cEra um curso muito bom. N\u00e3o tratava de bomba nem de guerrilha, como a imprensa conservadora imaginava. Eram mat\u00e9rias de car\u00e1ter social e pol\u00edtico\u201d, recorda.<\/p>\n<h3>PRIMEIRO, CASSADO; DEPOIS, PRESO<\/h3>\n<p>Em 1963, o rosto do militante estava estampado em santinhos com a frase <em>\u201cPara vereador \u2013 Moacir Longo \u2013 um oper\u00e1rio metal\u00fargico que tornou-se combativo jornalista a servi\u00e7o dos trabalhadores\u201d<\/em>. N\u00e3o se sentia \u00e0 vontade com a candidatura. \u201cS\u00f3 fui candidato porque o partido me for\u00e7ou. N\u00e3o queria, resisti bastante, mas acabei tendo de topar a parada\u201d, diz.<\/p>\n<div id=\"attachment_26513\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2019\/03\/folheto.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-26513\" class=\"wp-image-26513 size-full\" src=\"https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2019\/03\/folheto.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"450\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-26513\" class=\"wp-caption-text\">Oper\u00e1rios na constru\u00e7\u00e3o da nova sede \/ Acervo CMSP<\/p><\/div>\n<p>Na \u00e9poca, os comunistas adotavam a estrat\u00e9gia de concorrer por diferentes partidos, para n\u00e3o correrem o risco de serem alvos de uma <a href=\"http:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes-anteriores\/revista-apartes\/numero-3-novembro2013\/no03-uma-correcao-na-historia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201ccarnificina pol\u00edtico-eleitoral\u201d<\/a> como haviam sofrido em 1947. Enquanto Longo elegeu-se pelo PSB, outro membro do PCB, Odon Pereira da Silva, foi de PTB. Os comunistas ainda haviam conseguido emplacar um terceiro vereador, Gonzaga Pereira, eleito pelo PRT. Naquele tempo de segredos e informa\u00e7\u00f5es compartimentadas, a filia\u00e7\u00e3o de Gonzaga Pereira ao PCB n\u00e3o era conhecida nem por Longo ou Odon da Silva, que pertenciam a uma divis\u00e3o diferente do PCB. \u201cGonzaga era muito discreto\u201d, lembra.<\/p>\n<p>Longo fez uma campanha com poucos recursos. \u201cMinha campanha foi feita com um panfleto, bem simples, e reuni\u00f5es pequenas, com fam\u00edlias, nos bairros, portas de f\u00e1brica, e uma ou duas inscri\u00e7\u00f5es murais, que naquele tempo podia\u201d, conta. Ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es, realizadas em 6 de outubro, tornou-se vereador com 4.632 votos.<\/p>\n<p>Embora estreante na pol\u00edtica, conseguiu mostrar um bom poder de articula\u00e7\u00e3o. Nas conversas de bastidores para a escolha da Mesa Diretora, como muitos dos vereadores eleitos eram de primeiro mandato, vinham discutindo a cria\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de \u201cbancada dos novos\u201d, em oposi\u00e7\u00e3o aos da \u201cvelha pol\u00edtica\u201d. Longo fez os colegas desistirem da ideia, ao mostrar a divis\u00e3o que importava n\u00e3o era entre novos e velhos. \u201cProcurei mostrar que a principal divis\u00e3o na C\u00e2mara era entre as for\u00e7as progressistas e as conservadoras e golpistas\u201d, diz. Assim, ajudou a montar um grupo de 11 vereadores, conhecido como Bloco Nacionalista, que buscava reunir nomes identificados com a esquerda.<\/p>\n<p>A articula\u00e7\u00e3o comandada por Longo conquistou uma importante vit\u00f3ria na elei\u00e7\u00e3o da Mesa Diretora, que ocorreu em 1\u00ba de janeiro de 1964, numa sess\u00e3o tumultuada, com empurr\u00f5es e xingamentos. Mesmo sendo dono da maior bancada, o Partido Social Progressista (PSP), criado por Ademar de Barros, governador de S\u00e3o Paulo e um dos articuladores do golpe, saiu derrotado na disputa. A chapa liderada por Manoel Figueiredo Ferraz, genro de Ademar, perdeu feio. O PSP conseguiu levar apenas a vice-presid\u00eancia da Casa. J\u00e1 a UDN, dona da segunda maior bancada entre os vereadores <em>\u2013<\/em> e que no plano nacional era a principal opositora de Jo\u00e3o Goulart <em>\u2013<\/em>, ficou de fora da Mesa.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, a escolha da Mesa Diretora significou uma derrota para as for\u00e7as pol\u00edticas que, dali a tr\u00eas meses, viriam a arrancar o presidente Jo\u00e3o Goulart do poder. \u00c9 claro que nada desse hist\u00f3rico seria visto com bons olhos pelas autoridades quando a ditadura se instalasse. \u201cOs 11 vereadores entraram numa lista de nomes montada pelo tal Comando da Revolu\u00e7\u00e3o, mas no final cassaram apenas a mim, que era o coordenador do bloco\u201d, conta Longo.<\/p>\n<p>Ele permaneceu apenas tr\u00eas meses no Palacete Prates, tempo suficiente para presidir a Comiss\u00e3o da Lavoura, Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio, participar como membro da Comiss\u00e3o de Finan\u00e7as e Or\u00e7amento e arrumar pol\u00eamica ao denunciar na tribuna um acordo da Prefeitura com uma companhia telef\u00f4nica, que ele considerava lesivo ao Munic\u00edpio.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a cassa\u00e7\u00e3o, nunca mais se candidatou a outro cargo eletivo. \u201cAgora, nem for\u00e7ado pelo partido eu iria\u201d, diz. Mesmo na clandestinidade, nunca deixou de fazer pol\u00edtica do jeito que gostava, por meio do jornalismo ou da milit\u00e2ncia com as bases. \u201cEu sempre achei que militar politicamente \u00e9 um dever de cidadania\u201d, afirma.<\/p>\n<h3>A CRIAN\u00c7A QUE ESTAPEOU O TORTURADOR<\/h3>\n<p>A ditadura tamb\u00e9m n\u00e3o se esqueceu do ex-vereador: ao visitar um colega de partido, Longo acabou detido por agentes do Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00f5es do Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna (Doi-Codi). \u201cIsso foi em 25 de julho de 1972. Eu n\u00e3o esque\u00e7o\u201d, conta a professora Leda Rosa dos Santos Neto, com quem o comunista se casou em 1969. Quando seu marido foi preso, Leda levava no colo a filha de dois anos do casal, Laelya, e na barriga a segunda filha, Denise, que nasceria naquele ano. \u201cFoi terr\u00edvel\u201d, ela se lembra.<\/p>\n<p>O Doi-Codi, na \u00e9poca, era comandado pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, falecido em 2015 e conhecido pela brutalidade. Em 2008, tornou-se o primeiro militar a ser reconhecido oficialmente como torturador numa decis\u00e3o judicial. Desses tempos duros, a fam\u00edlia guarda uma daquelas cenas que, assustadora na \u00e9poca, hoje pode ser recordada com gra\u00e7a: \u201cNuma das visitas, Ustra foi fazer uma gracinha para minha filha Laelya e ela deu um tapa na cara dele\u201d. A crian\u00e7a de dois anos deu o recado que centenas de presos torturados e mortos gostariam de ter dado.<\/p>\n<div class=\"infografico-desktop\">\n[aesop_chapter  bgtype=&#8221;img&#8221; full=&#8221;on&#8221; img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2019\/03\/Moacir-esposa.jpg&#8221; video_autoplay=&#8221;play_scroll&#8221; bgcolor=&#8221;#888888&#8243; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221;]\n<\/div>\n<div class=\"infografico-mobile\">\n\n[aesop_image  img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2019\/03\/Moacir-esposa.jpg&#8221; panorama=&#8221;on&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; captionposition=&#8221;center&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<\/div>\n<p class=\"legenda\">Longo com a esposa, Leda Rosa \/ Cr\u00e9dito: Marcelo Ximenez\/CMSP<\/p>\n<p>Longo conta que foi torturado nas depend\u00eancias do Doi-Codi, mas prefere desconversar quando toca nesse tema, e n\u00e3o d\u00e1 para saber se isso \u00e9 por trauma, timidez ou ambos. Seja como for, ele n\u00e3o gosta de ser visto como her\u00f3i. \u201cN\u00e3o fiz nada de extraordin\u00e1rio, n\u00e3o cometi nenhum ato heroico, nada. Fui sempre um militante dedicado \u00e0 disciplina e \u00e0s tarefas do partido\u201d, \u00e9 como resume sua hist\u00f3ria no document\u00e1rio <em>O Longo caminho<\/em>.<\/p>\n<p>Do Doi-Codi, foi levado para o Pres\u00eddio Tiradentes e, depois, para o Pres\u00eddio do Hip\u00f3dromo, ambos endere\u00e7os de v\u00e1rios presos pol\u00edticos durante o regime militar. L\u00e1, entre discuss\u00f5es pol\u00edticas com outros presos, jogos de buraco e trabalhos manuais, como feitura de cestas e colares, aproveitava para fazer anota\u00e7\u00f5es em uma brochura, selecionando informa\u00e7\u00f5es dos livros de hist\u00f3ria do Brasil que recebia de Leda. Nas revistas gerais feitas nas celas, o caderno coberto de anota\u00e7\u00f5es cuidadosamente escritas foi apreendido duas vezes, mas devolvido.<\/p>\n<p>Longo saiu do pres\u00eddio, sob livramento condicional, em 1974. Ao lado da milit\u00e2ncia pol\u00edtica, voltou a fazer jornalismo, passando por ve\u00edculos como <em>Correio do Povo<\/em>, de Guarulhos, <em>Jornal de Hoje<\/em>, em Campinas (ao lado do jornalista Jos\u00e9 Hamilton Ribeiro), e <em>Folha de S. Paulo<\/em>. Ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o, atuou como assessor parlamentar e como assessor de comunica\u00e7\u00e3o do Sindicato dos Agentes Fiscais de Renda do Estado de S\u00e3o Paulo (Sinafresp), onde participou da publica\u00e7\u00e3o de quatro livros, entre eles <em>Reformas para desenvolver o Brasil<\/em> (Nobel, 2003).<\/p>\n<p>Em 2006, resolveu se aposentar da milit\u00e2ncia pol\u00edtica para \u201cficar de papo para o ar\u201d. Mas n\u00e3o foi exatamente o que fez. Aproveitou o tempo livre para usar as anota\u00e7\u00f5es feitas no c\u00e1rcere como base para seu livro <em>Brasil \u2013 os descaminhos do pa\u00eds das terras achadas<\/em>, lan\u00e7ado em 2008 pela Funda\u00e7\u00e3o Astrojildo Pereira. Com a obra, procurou preencher uma lacuna das reflex\u00f5es de seu partido, que achava voltadas demais para a realidade estrangeira. \u201cEsse livro \u00e9 o que eu queria dizer sobre o meu pa\u00eds. Depois que o escrevi, fiquei mais sossegado\u201d, conta.<\/p>\n<p>Hoje, \u00e9 considerado presidente de honra do PPS (atual Cidadania 23), nome adotado pelo antigo PCB em 1992. Em 2010, recebeu a Ordem do Ipiranga, a maior distin\u00e7\u00e3o concedida pelo governo de S\u00e3o Paulo. N\u00e3o se arrepende de nada. \u201cQuando a gente tem uma convic\u00e7\u00e3o, deve ser coerente com ela e ir em frente, haja o que houver.\u201d E pagou o pre\u00e7o por suas convic\u00e7\u00f5es: \u201cTive uma vida muito dura, muito tensa, convivendo com o medo de ser preso e perder a vida\u201d.<\/p>\n<p>\u201cHoje estou tranquilo e consigo dar mais aten\u00e7\u00e3o para a fam\u00edlia\u201d, acrescenta, sentado no sof\u00e1 da sala do seu apartamento, em um condom\u00ednio na Penha, zona leste paulistana, onde vive com a esposa. E onde o ronco do tr\u00e2nsito \u00e9 abafado pelos cantos de \u201cbem-te-vi, bem-te-vi\u201d do lado de fora.<\/p>\n<h3>DE VOLTA \u00c0 C\u00c2MARA<\/h3>\n\n\n\n[aesop_image  img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2019\/03\/reparacao2.jpg&#8221; panorama=&#8221;off&#8221; imgwidth=&#8221;1000%&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; caption=&#8221;Longo descerra placa em homenagem a vereadores cassados por a\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias \/ Cr\u00e9dito: Mozart Gomes\/CMSP&#8221; captionposition=&#8221;center&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<p>Aos 83 anos, Longo retomou sua hist\u00f3ria interrompida na C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo, ao presidir uma sess\u00e3o solene que, em 9 de dezembro de 2013, <a href=\"http:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes-anteriores\/revista-apartes\/numero-5-janeiro-fevereiro2014\/no05-um-viva-a-democracia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">restituiu simbolicamente<\/a> os mandatos de <a href=\"http:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes-anteriores\/revista-apartes\/numero-3-novembro2013\/no03-uma-correcao-na-historia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">42 vereadores cassados<\/a> por a\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias, entre 1937 e 1969.<\/p>\n<p>\u201cA noite de hoje \u00e9 importante para as novas gera\u00e7\u00f5es tomarem conhecimento de que no Brasil nunca houve democracia de fato para todos; neste Pa\u00eds sempre reinou a opress\u00e3o a todas as oposi\u00e7\u00f5es\u201d, criticou Longo durante a sess\u00e3o. \u201cAinda temos que avan\u00e7ar muito na constru\u00e7\u00e3o da democracia, n\u00e3o apenas pol\u00edtica, mas social\u201d, disse.<\/p>\n\n\n<p>Ao final de sua fala, o homem que, 49 anos antes, havia deixado a C\u00e2mara Municipal escondido em um carro, para n\u00e3o ser preso pela pol\u00edcia, e agora retornava \u00e0 institui\u00e7\u00e3o para presidir uma sess\u00e3o solene no Sal\u00e3o Nobre, concluiu: \u201cViva a democracia\u201d.<\/p>\n[aesop_image  img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2019\/03\/reparacao.jpg&#8221; panorama=&#8221;off&#8221; imgwidth=&#8221;80%&#8221; align=&#8221;right&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; caption=&#8221;Longo descerra placa em homenagem a vereadores cassados por a\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias \/ Cr\u00e9dito: Mozart Gomes\/CMSP&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n\n\n[aesop_content  color=&#8221;#3e3e3e&#8221; background=&#8221;#e1e1e1&#8243; columns=&#8221;1&#8243; position=&#8221;none&#8221; imgrepeat=&#8221;no-repeat&#8221; disable_bgshading=&#8221;off&#8221; floaterposition=&#8221;center&#8221; floaterdirection=&#8221;up&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; aesop-generator-content=&#8221;&lt;\/p&gt;<br \/>\n&lt;h3 align=&#034;center&#034;&gt;&lt;strong&gt;TRECHOS DA CARTA-DISCURSO DE MOACIR LONGO, LIDA NO PLEN\u00c1RIO POR DAVID LERER EM 16\/6\/1964, AP\u00d3S A CASSA\u00c7\u00c3O DO VEREADOR&lt;\/strong&gt;&lt;\/h3&gt;<br \/>\n&lt;p&gt;&lt;em&gt;Senhor Presidente,  Senhores Vereadores: desejaria despedir-me pessoalmente de todos os colegas da  C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo, no momento em que o Sr. Presidente da Rep\u00fablica,  Sr. Marechal Humberto de Alencar Castello Branco, assina ato do qual consta  mais uma lista de cassa\u00e7\u00e3o de mandatos e de suspens\u00e3o de direitos pol\u00edticos  pelo prazo de dez anos de cidad\u00e3os brasileiros, entre os quais figura o meu  nome.&lt;\/em&gt;&lt;br&gt;<br \/>\n&lt;em&gt;Creio que todos sabem  por que estou ausente, por que n\u00e3o posso comparecer pessoalmente. Nestas  condi\u00e7\u00f5es, falo pela \u00faltima vez aos nobres colegas, atrav\u00e9s desta  carta-discurso, \u00fanica forma ao meu alcance neste momento.&lt;\/em&gt;&lt;br&gt;<br \/>\n&lt;em&gt;O mandato ora cassado  n\u00e3o me pertencia. Era exercido por delega\u00e7\u00e3o de, aproximadamente, cinco mil  trabalhadores paulistanos que me honraram com a sua confian\u00e7a. O ato que me  atinge \u00e9 mais um entre centenas de outros que colocam representantes do povo e  lutadores em prol das causas populares ante a f\u00faria vingativa de algumas  personalidades civis e militares, investidas de poderes discricion\u00e1rios ao  encabe\u00e7arem um movimento de for\u00e7a que aboliu, em nossa p\u00e1tria, as liberdades  democr\u00e1ticas e o respeito \u00e0 pessoa humana.&lt;\/em&gt;&lt;br&gt;<br \/>\n&lt;em&gt;O regime de terror  implantado pelo Ato Institucional, editado por aqueles que julgam no direito de  tutelar a Na\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem futuro. N\u00e3o tem futuro porque est\u00e1 sendo repudiado  pelo povo brasileiro de tantas e t\u00e3o gloriosas tradi\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. N\u00e3o tem  futuro porque nascido de um movimento que se dizia contra a corrup\u00e7\u00e3o, atingiu  apenas e fundamentalmente leg\u00edtimos patriotas e defensores incans\u00e1veis da  emancipa\u00e7\u00e3o nacional, do progresso e do bem-estar do nosso povo. (\u2026)&lt;\/em&gt;&lt;br&gt;<br \/>\n&lt;em&gt;E n\u00e3o tem futuro  porque n\u00e3o tem movimento que se proponha restaurar a democracia, viola todas as  liberdades asseguradas pela Constitui\u00e7\u00e3o e instaura a &ldquo;democracia do sil\u00eancio&rdquo;,  fundada no desrespeito \u00e0 vontade popular, manifestada nas urnas, na interven\u00e7\u00e3o  nos sindicatos, nas entidades estudantis e nas associa\u00e7\u00f5es populares, no  arrolhamento da imprensa, r\u00e1dio e TV, bem como na interdi\u00e7\u00e3o das pra\u00e7as  p\u00fablicas para o povo.&lt;\/em&gt;&lt;br&gt;<br \/>\n&lt;em&gt;N\u00e3o tem futuro, ainda,  porque um movimento que tinha por objetivo restabelecer a autoridade e a  autonomia do Poder Legislativo, estabelece a morda\u00e7a e a tutela como formas de  intimid\u00e1-lo, subjug\u00e1-lo e coloc\u00e1-lo de joelhos, anulando-o como Poder  independente.(\u2026)&lt;\/em&gt;&lt;br&gt;<br \/>\n&lt;em&gt;A tudo isso o povo  assiste perplexo e aterrorizado, parece aceitar esse estado de coisas num  sil\u00eancio que, entretanto, revela um surdo protesto. Tenho certeza, contudo, que  n\u00e3o tolerar\u00e1 esta situa\u00e7\u00e3o por muito tempo. (\u2026)&lt;\/em&gt;&lt;br&gt;<br \/>\n&lt;em&gt;Essa n\u00e3o \u00e9 uma  previs\u00e3o fundada num otimismo gratuito. \u00c9, antes, a convic\u00e7\u00e3o de quem acredita  firmemente na voca\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica de seu povo, na sua disposi\u00e7\u00e3o de luta e no  fato de que \u00e9 ele quem faz a hist\u00f3ria.&lt;\/em&gt;&lt;br&gt;<br \/>\n&lt;em&gt;Ao encerrar estas  palavras, como brasileiro despojado de seus mais elementares direitos de  cidad\u00e3o, mas que continua sendo um do povo e, portanto, preocupado com os  destinos de sua p\u00e1tria, espero que a C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo se integre  na luta de reden\u00e7\u00e3o nacional.&lt;\/em&gt;&lt;br&gt;<br \/>\n&lt;em&gt;O ato que me tira da  vida p\u00fablica n\u00e3o me abate, n\u00e3o me desperta ressentimentos nem \u00f3dios, n\u00e3o me  coloca \u00e0 margem da luta pelo progresso, n\u00e3o me provoca arrependimentos, mas, ao  contr\u00e1rio, orgulha-me do que fiz at\u00e9 aqui. Gera em mim novas for\u00e7as para  prosseguir no caminho que escolhi \u2013 a luta pelo socialismo.&lt;\/em&gt;&lt;br&gt;<br \/>\n&lt;em&gt;Aos meus eleitores,  trabalhadores e companheiros do Partido Socialista Brasileiro (PSB), que em mim  confiaram, pe\u00e7o toler\u00e2ncia e compreens\u00e3o por n\u00e3o ter feito tudo que de mim  esperavam, no breve per\u00edodo de atividades parlamentares. Se mais n\u00e3o fiz foi,  talvez, por incapacidade e nunca porque me faltassem abnega\u00e7\u00e3o e esfor\u00e7o.&lt;\/em&gt;&lt;br&gt;<br \/>\n&lt;em&gt;Cumpro o ato do senhor  Presidente da Rep\u00fablica ao deixar o mandato legislativo, mas o mandato de luta  que o povo me outorgou est\u00e1 revigorado e ser\u00e1 exercido fora da C\u00e2mara.&lt;\/em&gt;&lt;br&gt;<br \/>\n&lt;em&gt;Ao despedir-me quero  reafirmar, ainda uma vez, a certeza de que o caminho da ditadura ser\u00e1 barrado,  e a democracia aut\u00eantica ser\u00e1 restaurada e que o povo brasileiro se libertar\u00e1.&lt;\/em&gt;&lt;br&gt;<br \/>\n&lt;em&gt;Muito obrigado, Sr.  Presidente e senhores Vereadores.&lt;\/em&gt;&lt;\/p&gt;<br \/>\n&lt;em&gt;S\u00e3o  Paulo, 15 de junho de 1964.&lt;\/em&gt;&#8221;]\n<h3 align=\"center\"><strong>TRECHOS DA CARTA-DISCURSO DE MOACIR LONGO, LIDA NO PLEN\u00c1RIO POR DAVID LERER EM 16\/6\/1964, AP\u00d3S A CASSA\u00c7\u00c3O DO VEREADOR<\/strong><\/h3>\n<p><em>Senhor Presidente, Senhores Vereadores: desejaria despedir-me pessoalmente de todos os colegas da C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo, no momento em que o Sr. Presidente da Rep\u00fablica, Sr. Marechal Humberto de Alencar Castello Branco, assina ato do qual consta mais uma lista de cassa\u00e7\u00e3o de mandatos e de suspens\u00e3o de direitos pol\u00edticos pelo prazo de dez anos de cidad\u00e3os brasileiros, entre os quais figura o meu nome.<\/em><br \/>\n<em>Creio que todos sabem por que estou ausente, por que n\u00e3o posso comparecer pessoalmente. Nestas condi\u00e7\u00f5es, falo pela \u00faltima vez aos nobres colegas, atrav\u00e9s desta carta-discurso, \u00fanica forma ao meu alcance neste momento.<\/em><br \/>\n<em>O mandato ora cassado n\u00e3o me pertencia. Era exercido por delega\u00e7\u00e3o de, aproximadamente, cinco mil trabalhadores paulistanos que me honraram com a sua confian\u00e7a. O ato que me atinge \u00e9 mais um entre centenas de outros que colocam representantes do povo e lutadores em prol das causas populares ante a f\u00faria vingativa de algumas personalidades civis e militares, investidas de poderes discricion\u00e1rios ao encabe\u00e7arem um movimento de for\u00e7a que aboliu, em nossa p\u00e1tria, as liberdades democr\u00e1ticas e o respeito \u00e0 pessoa humana.<\/em><br \/>\n<em>O regime de terror implantado pelo Ato Institucional, editado por aqueles que julgam no direito de tutelar a Na\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem futuro. N\u00e3o tem futuro porque est\u00e1 sendo repudiado pelo povo brasileiro de tantas e t\u00e3o gloriosas tradi\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. N\u00e3o tem futuro porque nascido de um movimento que se dizia contra a corrup\u00e7\u00e3o, atingiu apenas e fundamentalmente leg\u00edtimos patriotas e defensores incans\u00e1veis da emancipa\u00e7\u00e3o nacional, do progresso e do bem-estar do nosso povo. (\u2026)<\/em><br \/>\n<em>E n\u00e3o tem futuro porque n\u00e3o tem movimento que se proponha restaurar a democracia, viola todas as liberdades asseguradas pela Constitui\u00e7\u00e3o e instaura a \u201cdemocracia do sil\u00eancio\u201d, fundada no desrespeito \u00e0 vontade popular, manifestada nas urnas, na interven\u00e7\u00e3o nos sindicatos, nas entidades estudantis e nas associa\u00e7\u00f5es populares, no arrolhamento da imprensa, r\u00e1dio e TV, bem como na interdi\u00e7\u00e3o das pra\u00e7as p\u00fablicas para o povo.<\/em><br \/>\n<em>N\u00e3o tem futuro, ainda, porque um movimento que tinha por objetivo restabelecer a autoridade e a autonomia do Poder Legislativo, estabelece a morda\u00e7a e a tutela como formas de intimid\u00e1-lo, subjug\u00e1-lo e coloc\u00e1-lo de joelhos, anulando-o como Poder independente.(\u2026)<\/em><br \/>\n<em>A tudo isso o povo assiste perplexo e aterrorizado, parece aceitar esse estado de coisas num sil\u00eancio que, entretanto, revela um surdo protesto. Tenho certeza, contudo, que n\u00e3o tolerar\u00e1 esta situa\u00e7\u00e3o por muito tempo. (\u2026)<\/em><br \/>\n<em>Essa n\u00e3o \u00e9 uma previs\u00e3o fundada num otimismo gratuito. \u00c9, antes, a convic\u00e7\u00e3o de quem acredita firmemente na voca\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica de seu povo, na sua disposi\u00e7\u00e3o de luta e no fato de que \u00e9 ele quem faz a hist\u00f3ria.<\/em><br \/>\n<em>Ao encerrar estas palavras, como brasileiro despojado de seus mais elementares direitos de cidad\u00e3o, mas que continua sendo um do povo e, portanto, preocupado com os destinos de sua p\u00e1tria, espero que a C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo se integre na luta de reden\u00e7\u00e3o nacional.<\/em><br \/>\n<em>O ato que me tira da vida p\u00fablica n\u00e3o me abate, n\u00e3o me desperta ressentimentos nem \u00f3dios, n\u00e3o me coloca \u00e0 margem da luta pelo progresso, n\u00e3o me provoca arrependimentos, mas, ao contr\u00e1rio, orgulha-me do que fiz at\u00e9 aqui. Gera em mim novas for\u00e7as para prosseguir no caminho que escolhi \u2013 a luta pelo socialismo.<\/em><br \/>\n<em>Aos meus eleitores, trabalhadores e companheiros do Partido Socialista Brasileiro (PSB), que em mim confiaram, pe\u00e7o toler\u00e2ncia e compreens\u00e3o por n\u00e3o ter feito tudo que de mim esperavam, no breve per\u00edodo de atividades parlamentares. Se mais n\u00e3o fiz foi, talvez, por incapacidade e nunca porque me faltassem abnega\u00e7\u00e3o e esfor\u00e7o.<\/em><br \/>\n<em>Cumpro o ato do senhor Presidente da Rep\u00fablica ao deixar o mandato legislativo, mas o mandato de luta que o povo me outorgou est\u00e1 revigorado e ser\u00e1 exercido fora da C\u00e2mara.<\/em><br \/>\n<em>Ao despedir-me quero reafirmar, ainda uma vez, a certeza de que o caminho da ditadura ser\u00e1 barrado, e a democracia aut\u00eantica ser\u00e1 restaurada e que o povo brasileiro se libertar\u00e1.<\/em><br \/>\n<em>Muito obrigado, Sr. Presidente e senhores Vereadores.<\/em><\/p>\n<p><em>S\u00e3o Paulo, 15 de junho de 1964.<\/em><\/p>\n[\/aesop_content]\n<h3><strong><span style=\"color: #800000\">SAIBA MAIS<\/span><\/strong><\/h3>\n<p><strong>Comiss\u00f5es da Verdade<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>Relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade. <a href=\"http:\/\/cnv.memoriasreveladas.gov.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/cnv.memoriasreveladas.gov.br<\/a><br \/>\nRelat\u00f3rio da Comiss\u00e3o da Verdade do Estado de S\u00e3o Paulo Rubens Paiva. <a href=\"http:\/\/comissaodaverdade.al.sp.gov.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/comissaodaverdade.al.sp.gov.br\/<\/a><br \/>\nRelat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Municipal da Verdade \u2013 Vladimir Herzog 2013 \/ 2014.<br \/>\n<a href=\"http:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/livrocomissaodaverdade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/livrocomissaodaverdade\/<\/a><br \/>\nRelat\u00f3rio da Comiss\u00e3o da Mem\u00f3ria e Verdade da Prefeitura de S\u00e3o Paulo.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.prefeitura.sp.gov.br\/cidade\/secretarias\/upload\/direitos_humanos\/RelatorioCMV_DVD(1).pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/www.prefeitura.sp.gov.br\/cidade\/secretarias\/upload\/direitos_humanos\/RelatorioCMV_DVD(1).pdf<\/a><\/p>\n<p><strong>Livro<\/strong><br \/>\nElio Gaspari. <strong>A Ditadura envergonhada. <\/strong>Companhia das Letras, 2002<\/p>\n<div data-post-id=\"162\" class=\"insert-page insert-page-162 \"><span class=\"span-reading-time rt-reading-time\" style=\"display: block;\"><span class=\"rt-label rt-prefix\">Tempo estimado de leitura: <\/span> <span class=\"rt-time\"> 19<\/span> <span class=\"rt-label rt-postfix\">minutos<\/span><\/span><div style=\"margin-top: 85px;margin-bottom: 40px;padding: 0px 15px 0px 15px\">\n<h4 style=\"text-align: center !important\">Newsletter Apartes<\/h4>\n<center>Receba nossa newsletter em seu e-mail<\/center>\r\n<p><div class=\"tnp tnp-subscription \">\n<form method=\"post\" action=\"https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-admin\/admin-ajax.php?action=tnp&amp;na=s\">\n<input type=\"hidden\" name=\"nlang\" value=\"\">\n<div class=\"tnp-field tnp-field-firstname\"><label for=\"tnp-1\">Nome<\/label>\n<input class=\"tnp-name\" type=\"text\" name=\"nn\" id=\"tnp-1\" value=\"\" placeholder=\"\" required><\/div>\n<div class=\"tnp-field tnp-field-email\"><label for=\"tnp-2\">E-mail<\/label>\n<input class=\"tnp-email\" type=\"email\" name=\"ne\" id=\"tnp-2\" value=\"\" placeholder=\"\" required><\/div>\n<div class=\"tnp-field tnp-field-button\" style=\"text-align: left\"><input class=\"tnp-submit\" type=\"submit\" value=\"Fazer cadastro\" style=\"\">\n<\/div>\n<\/form>\n<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div style=\"font-size: .8em;text-align: center;padding: 0px 15px 20px 15px\"><b>J\u00e1 se cadastrou, mas n\u00e3o est\u00e1 recebendo a newsletter?<br \/>\n<\/b>Acesse sua caixa de spam ou lixo eletr\u00f4nico, selecione o e-mail e marque o remetente como confi\u00e1vel<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fausto Salvadori | fausto@saopaulo.sp.leg.br Vers\u00e3o atualizada de reportagem originalmente publicada em dezembro de 2011 Muitos vereadores n\u00e3o voltaram para casa naquela ter\u00e7a-feira. Preferiram passar a noite de 31 de mar\u00e7o de 1964 no interior do Palacete Prates, no Vale do Anhangaba\u00fa, onde funcionava a sede da C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo, acompanhando as not\u00edcias sobre [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":109,"featured_media":36721,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[68,120,116,119,114,118,115,122,117,104,16,121],"coauthors":[],"class_list":["post-36685","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-perfil","tag-camara-municipal-de-sao-paulo","tag-cassado","tag-cidade-de-sao-paulo","tag-comunista","tag-ditadura","tag-ditadura-militar","tag-golpe-de-64","tag-memoria","tag-moacir-longo","tag-palacio-anchieta","tag-sao-paulo","tag-vereador"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.4 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\r\n<title>O curto mandato de Moacir Longo - 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