{"id":3852,"date":"2018-05-04T17:38:55","date_gmt":"2018-05-04T20:38:55","guid":{"rendered":"http:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/?p=3852"},"modified":"2022-07-08T18:13:54","modified_gmt":"2022-07-08T21:13:54","slug":"no-tempo-do-murillo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/no-tempo-do-murillo\/","title":{"rendered":"No tempo do Murillo"},"content":{"rendered":"<span class=\"span-reading-time rt-reading-time\" style=\"display: block;\"><span class=\"rt-label rt-prefix\">Tempo estimado de leitura: <\/span> <span class=\"rt-time\"> 14<\/span> <span class=\"rt-label rt-postfix\">minutos<\/span><\/span><p><strong>Fausto Salvadori Filho<\/strong> | fausto@saopaulo.sp.leg.br<br \/>\nColabora\u00e7\u00e3o: Raphaella Magalh\u00e3es Salom\u00e3o<\/p>\n<h6><strong>Publicada originalmente em jan-jun\/2013 &#8211; edi\u00e7\u00e3o <\/strong><strong>n\u00ba1<\/strong><\/h6>\n<p><em>Am\u00e1vel leitor, quisera o autor da presente reportagem, que narra tempos idos e vividos da exist\u00eancia de Murillo Antunes Alves, emular o estilo daquele jornalista, cerimonialista e vereador. Para tal, tornar-se-ia necess\u00e1rio abrir m\u00e3o da roupagem contempor\u00e2nea e empregar palavras de sobrecasaca e gravata preta, como as que abrem<\/em><em> esta narrativa. Seria a forma ideal de homenagear Murillo, figura que brilhou no firmamento do jornalismo como uma das estrelas dos tempos primevos do r\u00e1dio e da televis\u00e3o, e modo seguro de trasladar o leitor de volta ao tempo dos comunicadores bachar\u00e9is, que traziam nas m\u00e3os gravadores de arame e o portugu\u00eas mais casti\u00e7o na ponta de suas l\u00ednguas.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o obstante, falta a este escriba \u201cengenho e arte\u201d, como recomendaria o velho Cam\u00f5es. E, mesmo que os houvesse, o resultado haveria de aparecer como um espet\u00e1culo sobremaneira enfadonho aos olhos hodiernos. Destarte, urge abrir m\u00e3o de todo o preciosismo dos tempos idos, sob o risco de enfastiar o am\u00e1vel leitor a ponto de afast\u00e1-lo da leitura. O que seria uma pena, j\u00e1 que vale a pena conhecer Murillo Antunes Alves.<\/em><\/p>\n<div class=\"infografico-mobile\">\n[aesop_image img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/04\/apartes_n01_57.jpg&#8221; panorama=&#8221;on&#8221; imgheight=&#8221;500px&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;off&#8221; captionposition=&#8221;center&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<\/div>\n<div class=\"infografico-desktop\">\n[aesop_chapter bgtype=&#8221;img&#8221; full=&#8221;on&#8221; img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/04\/apartes_n01_57.jpg&#8221; video_autoplay=&#8221;on&#8221; bgcolor=&#8221;#888888&#8243; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221;]\n<\/div>\n<p class=\"legenda\">Murillo entrevista o meia Rui Campos, da sele\u00e7\u00e3o vice-campe\u00e3 do mundo em 1950 &#8211; Arquivo pessoal<\/p>\n<p>A carreira jornal\u00edstica de Murillo durou mais de 70 anos e s\u00f3 chegou ao fim com sua morte, em 2010. Ele foi um dos primeiros rep\u00f3rteres do r\u00e1dio brasileiro e cobriu os principais eventos jornal\u00edsticos do s\u00e9culo 20. Gra\u00e7as a um fog\u00e3o quebrado, realizou a \u00faltima entrevista com Monteiro Lobato. Recebeu tantas vezes o trof\u00e9u Roquette Pinto, que seus organizadores criaram um limite para as premia\u00e7\u00f5es. Na TV Record, foi \u00e2ncora do programa\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Record_em_Not\u00edcias\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Record em Not\u00edcias<\/a>, o \u201cJornal da Tosse\u201d (por causa da idade avan\u00e7ada de seus apresentadores), que atravessou tr\u00eas d\u00e9cadas no ar. Como cerimonialista, atuou na C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo (CMSP), na Assembleia Legislativa paulista e em outras institui\u00e7\u00f5es, ajudando a profissionalizar o cerimonial p\u00fablico. Foi oficial de gabinete da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica e acompanhou de perto a ren\u00fancia de J\u00e2nio Quadros, em 1961. Tr\u00eas d\u00e9cadas depois, elegeu-se vereador paulistano e criou a lei do cinto de seguran\u00e7a obrigat\u00f3rio.<\/p>\n\n[aesop_image img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/04\/apartes_n01_65.jpg&#8221; panorama=&#8221;on&#8221; imgheight=&#8221;500px&#8221; credit=&#8221;Arquivo pessoal&#8221; alt=&#8221;Murillo estava sempre impec\u00e1vel, mesmo em transmiss\u00f5es para o r\u00e1dio&#8221; align=&#8221;left&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; caption=&#8221;Murillo estava sempre impec\u00e1vel, mesmo em transmiss\u00f5es para o r\u00e1dio&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n\n<p>\u201cA marca de Murillo era a eleg\u00e2ncia em tudo: na express\u00e3o verbal, nas atitudes, na roupa\u201d, lembra o jornalista Pedro Vaz. \u201cEle falava muito bem, sem repetir termos nem usar palavras parecidas. O texto j\u00e1 sa\u00eda editado da boca.\u201d Vaz trabalhou com Murillo na TV Record e, em 2002, entrevistou-o para um v\u00eddeo sobre a hist\u00f3ria do r\u00e1dio. \u201cMurillo estava sempre bem composto, de terno, \u00f3culos e cabelo impec\u00e1veis\u201d, conta.<\/p>\n<p>\u201cO Murillo fala um portugu\u00eas t\u00e3o casti\u00e7o que n\u00e3o parece que est\u00e1 dando not\u00edcia. Parece que est\u00e1 lendo a carta de Pero Vaz de Caminha!\u201d, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/1994\/2\/03\/ilustrada\/18.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">escreveu<\/a> o jornalista Jos\u00e9 Sim\u00e3o, da\u00a0Folha de S.Paulo, numa reportagem de 1992 sobre o \u201cJornal da Tosse\u201d, um programa que, nas palavras de Sim\u00e3o, precisava ser acompanhado \u201ccom o Aur\u00e9lio do lado\u201d.<\/p>\n<h3>IRRADIANDO DO TELHADO<\/h3>\n<div class=\"infografico-desktop\">\n[aesop_chapter title=&#8221;Irradiando do telhado&#8221; subtitle=&#8221;Aos dez anos, em escola de Itapetininga&#8221; bgtype=&#8221;img&#8221; full=&#8221;on&#8221; img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/04\/apartes_n01_58.jpg&#8221; video_autoplay=&#8221;on&#8221; bgcolor=&#8221;#888888&#8243; revealfx=&#8221;frombelow&#8221; overlay_revealfx=&#8221;frombelow&#8221;]\n<\/div>\n<div class=\"infografico-mobile\">\n[aesop_image img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/04\/apartes_n01_58.jpg&#8221; panorama=&#8221;on&#8221; imgheight=&#8221;500px&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;off&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<\/div>\n<p class=\"legenda\">Aos dez anos, em escola de Itapetininga &#8211; Arquivo pessoal<\/p>\n<p>Filho de professores, Murillo nasceu em Itapetininga, interior de S\u00e3o Paulo, em 28 de abril de 1919. Com 13 anos, era um escoteiro que fez a boa a\u00e7\u00e3o de \u201cauxiliar na distribui\u00e7\u00e3o de alimentos e apoio \u00e0s tropas constitucionais\u201d da Revolu\u00e7\u00e3o de 1932, \u201cquando transitavam por aquela cidade rumo ao sul\u201d, conforme depoimento registrado na CMSP. Com 14 anos, escrevia na publica\u00e7\u00e3o do col\u00e9gio,\u00a0<em>O Arauto<\/em>, da qual chegou ao cargo de editor-chefe, promo\u00e7\u00e3o que o jornalzinho divulgou assim: \u201cMurillo Antunes Alves, nosso redator-chefe, passou a usar cal\u00e7as compridas\u201d.<\/p>\n<p>As cal\u00e7as compridas levaram Murillo para os bancos da Faculdade de Direito do Largo S\u00e3o Francisco, da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), onde se formou em 1943. \u201cModestamente, tenho de confessar que fui o primeiro da turma. \u00c9ramos 216 alunos na formatura\u201d, contou Murillo na entrevista concedida a Pedro Vaz.<\/p>\n<p>Morando em um quarto alugado de pens\u00e3o, o jovem Murillo precisava de um emprego para bancar seus gastos. Seguindo o exemplo dos colegas, foi bater na porta das r\u00e1dios. \u201cA Faculdade de Direito era um verdadeiro celeiro de artistas e radialistas\u201d, conta Reynaldo Tavares, profissional do r\u00e1dio e autor do livro\u00a0<a href=\"https:\/\/www.paulus.com.br\/loja\/appendix\/3530.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Hist\u00f3rias que o R\u00e1dio n\u00e3o Contou<\/a> (Paulus, 2014). Entre os universit\u00e1rios que se tornaram pioneiros da \u00e1rea, h\u00e1 Nicolau Tuma, criador da express\u00e3o radialista (nascida dos termos r\u00e1dio e idealista, numa refer\u00eancia aos altos ideais e baixos sal\u00e1rios da profiss\u00e3o) e Casimiro Pinto Neto, hoje mais lembrado como <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/sp\/bauru-marilia\/noticia\/2014\/04\/homem-que-criou-lanche-bauru-completaria-100-anos-neste-sabado.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">criador<\/a> do sandu\u00edche bauru do que como o primeiro Rep\u00f3rter Esso de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n[aesop_gallery id=&#8221;3854&#8243; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221;]\n<p>A estreia de Murillo deu-se como locutor \u2013 ou\u00a0speaker, como se falava \u2013 da R\u00e1dio S\u00e3o Paulo, do grupo Emissoras Unidas, tamb\u00e9m formado por Record, Bandeirantes e Cosmos (futura Jovem Pan) e pertencente a Paulo Machado de Carvalho. \u201cEm mat\u00e9ria de ordenado, n\u00e3o sonhe muitas coisas. As pessoas s\u00e3o capazes de pagar para trabalhar no r\u00e1dio\u201d, foi logo dizendo um gerente da S\u00e3o Paulo. Murillo aprendeu a li\u00e7\u00e3o e, ao longo da vida profissional, teve trabalhos fora do jornalismo. Durante d\u00e9cadas, atuou como advogado especializado em assuntos esportivos, assessorando clubes e a Federa\u00e7\u00e3o Paulista de Futebol.<\/p>\n<p>O esporte era uma de suas grandes paix\u00f5es. A primeira cobertura esportiva foi um jogo do Palestra It\u00e1lia (antigo nome do Palmeiras). Como a R\u00e1dio S\u00e3o Paulo n\u00e3o tinha os direitos de transmiss\u00e3o, Murillo e o locutor Geraldo Jos\u00e9 de Almeida irradiaram o jogo do telhado de uma casa alugada pela emissora na Rua Turiassu, de onde era poss\u00edvel ver o est\u00e1dio do Palestra. Como outros radialistas se recusaram a trabalhar naquelas condi\u00e7\u00f5es, Murillo teve de fazer a fun\u00e7\u00e3o improvisada de comentar a partida. \u201cPassei todo o tempo embaixo das telhas, de c\u00f3coras, sem ver o campo, com uma lanterna para ler os an\u00fancios. N\u00e3o vi nada, mas mesmo assim comentei o jogo\u201d, contava Murillo. O trabalho \u00e0s cegas foi bem recebido, e ele tornou-se comentarista esportivo da S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<h3>REP\u00d3RTER PIONEIRO<\/h3>\n<p>Em 1942, foi para a Bandeirantes, onde tornou-se o primeiro locutor esportivo da emissora. Na R\u00e1dio Cultura, apresentou um programa de perguntas e respostas com universit\u00e1rios. Mesmo no r\u00e1dio, Murillo vestia uma beca por cima do smoking, j\u00e1 que o programa era visto por uma multid\u00e3o que lotava o audit\u00f3rio da emissora, na Avenida S\u00e3o Jo\u00e3o. Depois de passar pela R\u00e1dio Gazeta, pelo jornal\u00a0Gazeta Esportiva\u00a0e pela R\u00e1dio Tupi, voltou para a Bandeirantes, onde trocou a locu\u00e7\u00e3o esportiva por uma novidade: a reportagem.<\/p>\n<div class=\"infografico-desktop\">\n[aesop_chapter bgtype=&#8221;img&#8221; full=&#8221;on&#8221; img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/04\/De-beca.jpg&#8221; video_autoplay=&#8221;on&#8221; bgcolor=&#8221;#888888&#8243; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221;]\n<\/div>\n<div class=\"infografico-mobile\">\n[aesop_image img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/04\/De-beca.jpg&#8221; panorama=&#8221;on&#8221; imgheight=&#8221;500px&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;off&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<\/div>\n<p class=\"legenda\">De beca, apresenta na r\u00e1dio Bandeirantes um programa de perguntas e<br \/>\nrespostas com universit\u00e1rios, nos anos 40<\/p>\n\n<p>\u201cMurillo foi um dos primeiros a exercer a reportagem no r\u00e1dio\u201d, afirma Reynaldo. Depois de 1945, a ditadura do Estado Novo havia chegado ao fim, e com ela as exig\u00eancias de que todo radialista s\u00f3 poderia ler no ar textos previamente aprovados pelo Departamento de Imprensa e Propaganda. Pela primeira vez, o r\u00e1dio podia improvisar, narrar eventos ao vivo, entrevistar. Pela primeira vez, o r\u00e1dio podia reportar.<\/p>\n[aesop_image img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/04\/apartes_n01_108.jpg&#8221; credit=&#8221;Arquivo pessoal&#8221; alt=&#8221;Murillo em caricatura publicada na coluna Fora do Microfone, na Gazeta Esportiva, em 1944&#8243; align=&#8221;left&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; caption=&#8221;Murillo em caricatura publicada na coluna Fora do Microfone, na Gazeta Esportiva, em 1944&#8243; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;inplace&#8221; overlay_revealfx=&#8221;inplace&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<p>No in\u00edcio da nova fun\u00e7\u00e3o, Murillo entrevistou o governador de S\u00e3o Paulo, Ademar de Barros, para a Bandeirantes, em 1947. Usou um dos primeiros gravadores do Brasil, equipamento importado dos Estados Unidos, da marca General Electric, que s\u00f3 funcionava ligado a uma tomada. As grava\u00e7\u00f5es eram registradas num arame, que \u00e0s vezes arrebentava e precisava ser emendado com um palito de f\u00f3sforo. Ademar gostou da entrevista e, no mesmo ano, comprou a Bandeirantes. Sem disposi\u00e7\u00e3o para trabalhar numa r\u00e1dio pol\u00edtica, Murillo preferiu mudar-se para a Record, onde ficaria at\u00e9 morrer.<\/p>\n<h3>GET\u00daLIO E LOBATO<\/h3>\n\n<!-- iframe plugin v.6.0 wordpress.org\/plugins\/iframe\/ -->\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"300\" scrolling=\"no\" frameborder=\"no\" allow=\"autoplay\" src=\"https:\/\/w.soundcloud.com\/player\/?url=https%3A\/\/api.soundcloud.com\/tracks\/430562520&#038;color=%23ff5500&#038;auto_play=false&#038;hide_related=false&#038;show_comments=true&#038;show_user=true&#038;show_reposts=false&#038;show_teaser=true&#038;visual=true\" class=\"iframe-class\"><\/iframe>\n\n<p>Foi na Record que Murillo produziu suas principais reportagens. Em maio de 1948, conseguiu uma rara entrevista com o senador Get\u00falio Vargas, que se mantinha incomunic\u00e1vel em um autoex\u00edlio no interior do Rio Grande do Sul. Em um avi\u00e3o fretado pela Record, foi at\u00e9 S\u00e3o Borja em busca de not\u00edcias do ex-presidente. Encontrou Greg\u00f3rio Fortunato, mas o chefe da guarda pessoal de Get\u00falio disse que ele n\u00e3o falaria com a imprensa. De volta ao hotel, durante o jantar o gerente chamou-o de lado: \u201cAquele senhor jantando \u00e9 compadre do doutor Get\u00falio\u201d. Murillo aproximou-se e puxou conversa. Papo vem, u\u00edsque vai, perguntou: \u201cO senhor j\u00e1 andou de avi\u00e3o?\u201d. Fascinado com a oportunidade, o compadre aceitou levar o jornalista e sua equipe, em um monomotor alugado, para a fazenda onde estava Get\u00falio, na cidade vizinha de Itati.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s aterrissar no pasto, foram recebidos por Vargas, de bombachas e charuto, que os convidou para o almo\u00e7o \u2013 um churrasco que, para o paladar de Murillo, pareceu \u201cduro como sola de sapato\u201d. Como sobremesa, Get\u00falio aceitou responder a algumas perguntas e, no final, leu uma declara\u00e7\u00e3o, endere\u00e7ada aos \u201ctrabalhadores do Brasil\u201d, em que dizia: \u201cVenho, trabalhadores, trazer-vos, com minha voz, a presen\u00e7a do ausente, porque senti em vossos cora\u00e7\u00f5es a aus\u00eancia dos presentes\u201d. O encontro ocorreu meses antes da hist\u00f3rica entrevista de Get\u00falio ao jornalista <a href=\"http:\/\/www.fgv.br\/cpdoc\/acervo\/dicionarios\/verbete-biografico\/wainer-samuel\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Samuel Wainer<\/a>, em fevereiro de 1949, quando anunciou que concorreria \u00e0 presid\u00eancia.<\/p>\n<div class=\"infografico-desktop\">\n<!-- iframe plugin v.6.0 wordpress.org\/plugins\/iframe\/ -->\n<iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/wp-content\/uploads\/apartes\/info-murillo\/murillo.html\" width=\"100%\" height=\"800\" frameborder=\"0\" scrolling=\"yes\" class=\"iframe-class\"><\/iframe>\n<\/div>\n<div class=\"infografico-mobile\">\n<!-- iframe plugin v.6.0 wordpress.org\/plugins\/iframe\/ -->\n<iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/wp-content\/uploads\/apartes\/info-murillo\/murillo-mobile.html\" width=\"100%\" height=\"500px\" frameborder=\"0\" scrolling=\"yes\" class=\"iframe-class\"><\/iframe>\n<\/div>\n<p>Para gravar a entrevista com o ex-presidente, numa fazenda sem energia el\u00e9trica, a equipe de Murillo havia levado duas malas gigantescas, equipadas com baterias de caminh\u00e3o. Isso apenas para fazer o gravador funcionar. As transmiss\u00f5es fora dos est\u00fadios s\u00f3 come\u00e7ariam anos depois, com a importa\u00e7\u00e3o de novos materiais, tamb\u00e9m enormes. \u201cPara irradiar um inc\u00eandio, utilizamos um equipamento que os americanos haviam usado na guerra. Foram necess\u00e1rias tr\u00eas pessoas: eu, irradiando num microfone com fio, um t\u00e9cnico com uma bateria e um terceiro com um transmissor\u201d, contou Murillo na entrevista a Pedro Vaz.<\/p>\n<p>Em 6 de julho de 1948, Murillo foi ao encontro de Monteiro Lobato, mas o escritor recusou a entrevista. Muito doente, dizia-se desligado das coisas terrenas, esperando a morte como \u201cum alvar\u00e1 de soltura\u201d. Lobato tinha, contudo, uma preocupa\u00e7\u00e3o bem terrena com o fog\u00e3o el\u00e9trico do seu apartamento, que estava quebrado. Um t\u00e9cnico da r\u00e1dio ofereceu-se para tentar consertar. Conseguiu. Em agradecimento, o escritor aceitou falar com o rep\u00f3rter e seu equipamento inusitado. \u201cEu estou falando e dizem eles que o aparelho est\u00e1 gravando e depois vai repetir ao mundo as minhas bobagens\u201d, afirmou Lobato, estranhando o gravador. Na entrevista \u2013 dispon\u00edvel no livro\u00a0<em>Confer\u00eancias, Artigos e Cr\u00f4nicas<\/em>\u00a0(Globo, 2010) \u2013 o criador do S\u00edtio do Picapau Amarelo confessou um arrependimento: queria ter escrito muito mais para crian\u00e7as. \u201cEu perdi o tempo escrevendo para gente grande, que \u00e9 coisa que n\u00e3o vale a pena.\u201d<\/p>\n[aesop_image img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/04\/apartes_n01_68.jpg&#8221; credit=&#8221;Arquivo pessoal&#8221; alt=&#8221;No r\u00e1dio, cobriu os principais fatos jornal\u00edsticos do s\u00e9culo 20&#8243; align=&#8221;left&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; caption=&#8221;No r\u00e1dio, cobriu os principais fatos jornal\u00edsticos do s\u00e9culo 20&#8243; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n\n<p>\u201cEnt\u00e3o, agora, a \u00faltima pergunta, Monteiro Lobato: neste momento, nesta hora, qual seria o seu maior desejo,?\u201d, encerrou Murillo. \u201cMeu maior desejo, neste momento\u201d, respondeu, \u201cseria ver este locutor pelas costas e eu j\u00e1 l\u00e1 em cima, no meu apartamento, na cama, para descansar desta esfrega que levei hoje\u201d. Dois dias depois, v\u00edtima de um acidente vascular cerebral, Monteiro Lobato morreu.<\/p>\n<h3>MODO DE PERGUNTAR<\/h3>\n<p>\u201cMurillo era o rep\u00f3rter dos rep\u00f3rteres, um profissional\u00a0<em>primus inter paris<\/em>\u00a0(\u00fanico entre seus pares) do radiojornalismo\u201d, afirma o jornalista Salom\u00e3o \u00c9sper, veterano do r\u00e1dio que, como Murillo, formou-se no Largo S\u00e3o Francisco e tem um gosto pelo portugu\u00eas vernacular. \u201cQuiseram os fados que eu tivesse esse conv\u00edvio honroso, mas relativamente passageiro com ele\u201d, recorda \u00c9sper, que trabalhou com Murillo em seu primeiro emprego, na Record, em 1948. \u201cSer entrevistado por ele era uma gl\u00f3ria para qualquer pessoa, pela sua linguagem, pela sua cultura, pelo seu conhecimento\u201d, lembra.<\/p>\n<p>Murillo era elegante at\u00e9 para perguntar se um pol\u00edtico era ladr\u00e3o. Um dia, um grupo de colegas, jogando conversa fora na sala de imprensa da Assembleia Legislativa, desafiou o jornalista a perguntar para o governador Ademar de Barros sobre a famigerada \u201ccaixinha\u201d que, dizia-se, o pol\u00edtico embolsava em todas as obras p\u00fablicas. Aceito o desafio, aproximou o microfone de Ademar e fez a pergunta: \u201cVossa Excel\u00eancia sabe perfeitamente, melhor do que ningu\u00e9m, que todo homem p\u00fablico est\u00e1 sujeito a uma s\u00e9rie de ataques e inventivas. O senhor \u00e9 constantemente acusado pelos seus advers\u00e1rios de ter uma caixinha. Como Vossa Excel\u00eancia recebe isso? Existe a caixinha?\u201d. Diante da formula\u00e7\u00e3o da pergunta, o governador n\u00e3o se alterou e respondeu calmamente, com as negativas de praxe. \u201cVoc\u00ea pode perguntar o que quiser. O importante \u00e9 o modo de perguntar\u201d, arrematava Murillo.<\/p>\n[aesop_image img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/04\/apartes_n01_66e67.jpg&#8221; panorama=&#8221;on&#8221; imgheight=&#8221;600px&#8221; credit=&#8221;Arquivo pessoal&#8221; alt=&#8221;Ao lado da esposa, Erika, com quem viveu 48 anos&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; caption=&#8221;Ao lado da esposa, Erika, com quem viveu 48 anos&#8221; captionposition=&#8221;center&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<p>Como radiojornalista e, mais tarde, tamb\u00e9m como rep\u00f3rter e apresentador da TV Record, Murillo cobriu alguns dos principais eventos jornal\u00edsticos do s\u00e9culo 20, como as elei\u00e7\u00f5es da It\u00e1lia em 1948 e dos EUA em 1952, a inaugura\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, em 1955, a chegada do homem \u00e0 Lua, em 1969, o casamento da princesa Diana, em 1981, e a morte de Tancredo Neves, em 1985. Entre as centenas de pessoas que entrevistou, h\u00e1 tamb\u00e9m nomes como Eva Per\u00f3n, Catherine Deneuve, Nat King Cole, Roberto Carlos e Vittorio De Sica. Dos presidentes, ainda passaram pelo seu microfone Washington Lu\u00eds, J\u00falio Prestes, Get\u00falio Vargas, J\u00e2nio Quadros, Jo\u00e3o Goulart, Costa e Silva, Garrastazu M\u00e9dici, Ernesto Geisel, Jo\u00e3o Figueiredo e Jos\u00e9 Sarney.<\/p>\n<p>Recebeu sete trof\u00e9us Roquette Pinto, o Oscar do r\u00e1dio e da TV brasileiros, o que levou os organizadores a mudar as regras do evento, estabelecendo um limite de seis premia\u00e7\u00f5es por pessoa. A decis\u00e3o n\u00e3o impediu que, anos depois, Murillo levasse para casa o seu oitavo Roquette Pinto, como homenagem por sua carreira.<\/p>\n<p>Em 1953, casou-se com a professora Erika Menguer. Natural de Kulmbach, na Alemanha, e naturalizada brasileira, Erika era filha do dono de uma pens\u00e3o onde Murillo havia morado, no bairro de Santa Cec\u00edlia, e lecionou durante muitos anos no Centro Cultural Brasil-Estados Unidos de S\u00e3o Paulo. O casal viveu junto at\u00e9 a morte de Erika, em 2001. Eles tiveram um filho, Roberto Murillo Antunes Alves, oito netos e um bisneto. \u201cMeu pai foi um amigo que me deu conselhos sempre que precisei. Apesar de ficar pouco tempo em casa, por causa do trabalho, nada me faltou em termos de apoio\u201d, conta Roberto.<\/p>\n<h3>TROCADILHOS E SOVINICES<\/h3>\n<div class=\"infografico-desktop\">\n[aesop_chapter title=&#8221;Trocadilhos e sovinices&#8221; bgtype=&#8221;img&#8221; full=&#8221;on&#8221; img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/04\/apartes_n01_69.jpg&#8221; video_autoplay=&#8221;on&#8221; bgcolor=&#8221;#888888&#8243; revealfx=&#8221;frombelow&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221;]\n<\/div>\n<div class=\"infografico-mobile\">\n[aesop_image img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/04\/apartes_n01_69.jpg&#8221; panorama=&#8221;on&#8221; imgheight=&#8221;500px&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;off&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<\/div>\n<p class=\"legenda\">Como vereador, concedeu T\u00edtulo de Cidad\u00e3o Paulistano a Alexandre Jose Barbosa Lima Sobrinho &#8211; \u00c2ngelo Dantas\/CMSP<\/p>\n<p>A formalidade de Murillo, que utilizava a norma culta em todas as conversas e fazia do terno a roupa de todos os dias, era uma de suas marcas. \u201cEu s\u00f3 via o meu sogro de palet\u00f3. Fui saber como eram os bra\u00e7os dele no final da vida, quando ficou doente\u201d, conta S\u00edlvia Regina Abdelnur Antunes Alves, esposa de Roberto. Mas a estampa sisuda escondia um sujeito bem humorado. Gostava de jogar avi\u00f5ezinhos de papel pela janela durante o trabalho e, em cada conversa, fazia quest\u00e3o de soltar trocadilhos. \u201cVoc\u00ea veio para ver a alegria ou vereador?\u201d, costumava perguntar em seus tempos de C\u00e2mara Municipal. Salom\u00e3o \u00c9sper n\u00e3o esquece o epis\u00f3dio em que Murillo foi interpelado por um colega enquanto colava estampilhas numa sobrecarta: \u201cFala um a\u00ed, grande trocadilhista\u201d. Sem pestanejar, respondeu: \u201cN\u00e3o sou trocadilhista, mas posso fazer um sem s\u00ea-lo\u201d, e colou o selo na carta.<\/p>\n<p>T\u00e3o famosa quanto a capacidade verbal de Murillo era a sua p\u00e3o-durice. O jornalista e muse\u00f3logo Luiz Ernesto Machado Kawall conta que Murillo amea\u00e7ava n\u00e3o ir \u00e0s festas do Roquette Pinto, lamentando com Paulo Machado de Carvalho que n\u00e3o tinha roupas adequadas. E tanto falava que convencia o propriet\u00e1rio da Record a comprar roupas para ele e sua esposa. Motoristas que trabalharam com o jornalista contam que ele n\u00e3o sa\u00eda de um evento sem antes forrar os bolsos do palet\u00f3 com os salgadinhos do buf\u00ea.<\/p>\n[aesop_image img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/04\/apartes_n01_70.jpg&#8221; credit=&#8221;Arquivo pessoal&#8221; alt=&#8221;Material de campanha para as elei\u00e7\u00f5es de 1996&#8243; align=&#8221;left&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; caption=&#8221;Material de campanha para as elei\u00e7\u00f5es de 1996&#8243; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;fromleft&#8221; overlay_revealfx=&#8221;fromleft&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<p>Em um dos encontros da Academia Paulista de Jornalismo, no Terra\u00e7o It\u00e1lia, o presidente da entidade, Israel Dias Novaes, ao discursar sobre seus dias de jovem interiorano, lembrou que costumava dividir o trem com Murillo, que dava um jeito de se esconder quando o chefe do trem aparecia para recolher os bilhetes. Presente ao evento, Murillo levantou-se e aproveitou para encaixar um de seus trocadilhos: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 provando que sempre fui impag\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>Se era impag\u00e1vel, n\u00e3o era por falta de dinheiro. Na declara\u00e7\u00e3o de bens (seus e de Erika) que tornou p\u00fablica em 1992, para o cargo de vereador, constavam, entre outros itens, dois apartamentos, 20 casas, seis terrenos, duas ch\u00e1caras, quatro tapetes persas, tr\u00eas carros, um trator e 170 cabe\u00e7as de gado.<\/p>\n<h3>\u201cJORNAL DA TOSSE\u201d<\/h3>\n<p>Murillo era oficial de gabinete da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, em 1961, quando J\u00e2nio Quadros renunciou. No dia 25 de agosto, estava feliz, pois havia terminado de levar todos os seus m\u00f3veis de S\u00e3o Paulo. \u201cHoje \u00e9 um grande dia, presidente. Estou recebendo minha mudan\u00e7a e poderei me fixar definitivamente em Bras\u00edlia\u201d, teria dito Murillo, conforme relato ouvido por Kawall. J\u00e2nio ouviu sem dizer nada. Ainda pela manh\u00e3, ap\u00f3s uma reuni\u00e3o com quatro ministros, o presidente deixou o Planalto e disse para Murillo apenas \u201cmuito obrigado e at\u00e9 logo\u201d. Quarenta minutos depois, o jornalista soube, pelo chefe do Gabinete Militar, que o presidente n\u00e3o mais voltaria. \u201cDestru\u00edmos os documentos e, como souvenir, guardei a agenda do \u00faltimo encontro\u201d, declarou Murillo para a rep\u00f3rter Marisa Raja Gabaglia, do\u00a0Di\u00e1rio Popular\u00a0(atual\u00a0Di\u00e1rio de S.Paulo).<\/p>\n[aesop_image img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/04\/apartes_n01_71.jpg&#8221; credit=&#8221;Gute Garbelotto\/CMSP&#8221; alt=&#8221;Homenageado pela CMSP em 2008, no Dia do Cerimonialista&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; caption=&#8221;Homenageado pela CMSP em 2008, no Dia do Cerimonialista&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<p>A fama e a eleg\u00e2ncia renderam a Murillo a oportunidade de atuar como mestre-de-cerim\u00f4nias em diversos eventos e como cerimonialista em \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos. Em 1953, foi nomeado chefe do cerimonial da Assembleia Legislativa paulistana, casa onde atuou como servidor at\u00e9 se aposentar, em 1985. Tamb\u00e9m foi chefe do cerimonial no governo do Estado, na Prefeitura, onde voltou a trabalhar com J\u00e2nio, e no Tribunal de Justi\u00e7a, todos de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>No cerimonial, teve um papel t\u00e3o destacado que, ao v\u00ea-lo cobrindo, como rep\u00f3rter, o casamento da princesa Diana, em 1981, o jornalista Mino Carta ironizou na\u00a0Folha de S.Paulo: \u201cOs ingleses devem ter sido informados da chegada de Murillo Antunes Alves quando j\u00e1 era tarde demais, porque se soubessem com alguma anteced\u00eancia, n\u00e3o perderiam a oportunidade de consult\u00e1-lo sobre a programa\u00e7\u00e3o da festa. Um mestre-de-cerim\u00f4nias como o Murillo n\u00e3o aparece todos os dias, n\u00e3o d\u00e1 sopa t\u00e3o facilmente\u201d.<\/p>\n<p>As atividades no Poder P\u00fablico n\u00e3o impediram Murillo de continuar \u00e0 frente dos programas da TV Record. O mais duradouro foi o\u00a0Record em Not\u00edcias, criado em 1976 pelo jornalista H\u00e9lio Ansaldo. Lembrava um programa de r\u00e1dio e o estilo, t\u00e3o antigo quanto seus apresentadores, gerava cr\u00edticas e piadas, como o apelido \u201cJornal da Tosse\u201d, que ficou mais conhecido que o nome oficial. \u201c\u00c9 hil\u00e1rio ver Murillo Antunes Alves iniciar suas falas com cita\u00e7\u00f5es em latim num pa\u00eds em que grande parte das pessoas mal domina a l\u00edngua materna\u201d, apontava o jornalista Fernando Barros e Silva na\u00a0Folha de S.Paulo, em 1990. Os jornalistas aceitavam as cr\u00edticas com bom humor, chegando a assumir informalmente o apelido de \u201cJornal da Tosse\u201d. S\u00f3 nunca aceitaram o patroc\u00ednio do xarope Melagri\u00e3o, que Helio Ansaldo achou demais.<\/p>\n<h3>LEI DO CINTO<\/h3>\n<p>O \u201cJornal da Tosse\u201d tinha seus f\u00e3s. Prova disso, al\u00e9m da longevidade do telejornal, foi que v\u00e1rios dos seus apresentadores fizeram carreira pol\u00edtica, como Jos\u00e9 Serra, Arnaldo Faria de S\u00e1 e Jo\u00e3o Mell\u00e3o Neto. O pr\u00f3prio Murillo tamb\u00e9m se lan\u00e7ou candidato, em 1992, elegendo-se vereador com 13.609 votos, pelo PMDB.<\/p>\n[aesop_image img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/04\/apartes_n01_72.jpg&#8221; credit=&#8221;Arquivo pessoal&#8221; alt=&#8221;Murillo promove a lei do cinto de seguran\u00e7a obrigat\u00f3rio, de sua autoria&#8221; align=&#8221;right&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; caption=&#8221;Murillo promove a lei do cinto de seguran\u00e7a obrigat\u00f3rio, de sua autoria&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<p>O feito mais conhecido do vereador Murillo foi a cria\u00e7\u00e3o da lei que tornou obrigat\u00f3rio o uso do cinto de seguran\u00e7a. Alguns juristas levantaram que o projeto seria inconstitucional, pois apenas a Uni\u00e3o poderia legislar sobre tr\u00e2nsito. Vencendo as resist\u00eancias, o projeto foi aprovado pela C\u00e2mara e sancionado ent\u00e3o pelo prefeito Paulo Maluf, que assumiu a nova lei com entusiasmo.<\/p>\n<p>Amparada por um esquema maci\u00e7o de divulga\u00e7\u00e3o e fiscaliza\u00e7\u00e3o, a norma entrou em vigor em novembro de 1994 e mudou os h\u00e1bitos do paulistano. Ao final de um ano de vig\u00eancia, a ades\u00e3o \u00e0 lei entre os motoristas ultrapassou 90% e o n\u00famero de mortes caiu de 2.401 casos para 2.278, mesmo com o aumento no n\u00famero de acidentes. \u201cMesmo que uma s\u00f3 pessoa tivesse sido salva ou n\u00e3o se ferido gravemente, a lei j\u00e1 teria alcan\u00e7ado seu objetivo fundamental: preservar vidas\u201d, comemorou o vereador.<\/p>\n<p>Em 2005, uma decis\u00e3o do Supremo Tribunal Federal confirmaria que a Lei do Cinto era, de fato, inconstitucional. \u00c0quela altura, contudo, a revoga\u00e7\u00e3o da lei em nada mudou a vida dos paulistanos: desde 1997, o C\u00f3digo Brasileiro de Tr\u00e2nsito obriga o uso do cinto em todo o territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n[aesop_image img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/04\/apartes_n01_73.jpg&#8221; credit=&#8221;Fausto Salvadori Filho\/CMSP&#8221; alt=&#8221;Nora e filho mostram trof\u00e9u Roquette Pinto com escultura de Murillo&#8221; align=&#8221;center&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; caption=&#8221;Nora e filho mostram trof\u00e9u Roquette Pinto com escultura de Murillo&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;inplace&#8221; overlay_revealfx=&#8221;inplace&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<p>Murillo n\u00e3o conseguiu ir al\u00e9m do primeiro mandato. Saiu derrotado das elei\u00e7\u00f5es de 1996, mesmo ano em que a Record decretou o \u00faltimo pigarro do \u201cJornal da Tosse\u201d. Uma derrota que n\u00e3o parece ter abatido o pol\u00edtico, que encarava as campanhas por votos como \u201cuma agrura n\u00e3o muito distante dos sofrimentos de S\u00edsifo ou, se preferirem, das ang\u00fastias das Danaides\u201d. Das m\u00e3os do ent\u00e3o presidente da C\u00e2mara, Nelo Rodolfo, Murillo ganhou a chefia do cerimonial da CMSP, cargo que exerceu de 14 de janeiro de 1997 a 10 de janeiro de 2001.<\/p>\n<h3>AS MENINAS DO MURILLO<\/h3>\n<p>\u201cQuando era vereador, Murillo vivia dando sugest\u00f5es para melhorar o cerimonial, um servi\u00e7o que estava come\u00e7ando na C\u00e2mara\u201d, conta Rodolfo. O novo chefe, segundo Rodolfo, mudou a cara do servi\u00e7o. \u201cEle trouxe muito respeito para o cerimonial. Passou a ter um car\u00e1ter oficial de solenidade, a respeitar os protocolos, e hoje \u00e9 um dos mais efetivos e corretos que conhe\u00e7o\u201d, recorda o ex-presidente.<\/p>\n<p>\u201cCom Murillo, o cerimonial se institucionalizou. Ele trouxe o peso do cerimonial t\u00e9cnico\u201d, conta a atual chefe do setor, Cec\u00edlia de Arruda, sobre quando trabalhou com o jornalista e outras cerimonialistas, que ficaram conhecidas como \u201cas meninas do Murillo\u201d. Todas aprenderam muito com ele, come\u00e7ando com a ordem de preced\u00eancia para a apresenta\u00e7\u00e3o das autoridades, quest\u00e3o bastante sens\u00edvel para os cerimonialistas, que s\u00e3o antes de tudo gestores de egos. Aprenderam a remover as cadeiras dos audit\u00f3rios em dias com muitos eventos, para evitar que os convidados se acomodassem e esticassem as cerim\u00f4nias al\u00e9m do tempo estipulado. E se encantaram com a cultura de Murillo, capaz de saudar na l\u00edngua de origem o convidado de um pa\u00eds de idioma franc\u00eas ou de saber como agir num evento para seguidores do Isl\u00e3. \u201cHoje, a gente tem o Google. Na \u00e9poca, tinha o Murillo\u201d, recorda Odete Recioli Ferreira da Rocha, outra das \u201cmeninas do Murillo\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de aprender com o mestre em cerim\u00f4nias e ouvir suas tantas hist\u00f3rias, as meninas cuidavam de Murillo, j\u00e1 um velhinho. Todos os dias, depois do almo\u00e7o, ele ia para casa, onde tomava uma sesta e voltava descansado ao Pal\u00e1cio Anchieta. \u201cSempre andando r\u00e1pido, esticadinho, magro, com mocassins italianos e ternos do arco da velha, que ele usava at\u00e9 o osso\u201d, descreve a servidora da CMSP Maria Regina Macedo Novo Leonetti.<\/p>\n<p>As meninas tamb\u00e9m aprenderam a lidar com o conservadorismo de Murillo, que n\u00e3o admitia determinadas atitudes, como a homenagem de um vereador \u00e0 cultura africana que terminou em um bailado de jovens com os seios de fora. O chefe do Cerimonial ficou indignado com a cena, mas j\u00e1 n\u00e3o havia o que pudesse fazer. \u201cN\u00f3s n\u00e3o contamos para ele o que ia acontecer, porque sab\u00edamos que seria contra\u201d, diverte-se Maria Regina.<\/p>\n<h3>PONTO FINAL<\/h3>\n<p>At\u00e9 seus \u00faltimos dias, o jornalista ia \u00e0 reda\u00e7\u00e3o da Record para conversar com os colegas. N\u00e3o se aposentou: ao morrer, em fevereiro de 2010, era o funcion\u00e1rio mais antigo da empresa. O jornalista Luiz Kawall, que recebera de Murillo sementes de caf\u00e9 de sua fazenda em Alambari (SP), fez quest\u00e3o de plant\u00e1-las na Pra\u00e7a Benedito Calixto, onde mora. \u201cFoi minha homenagem ao Murillo.\u201d A planta permanece l\u00e1 at\u00e9 hoje, lembrando um mestre no of\u00edcio de transformar a vida em narrativa.<\/p>\n<div data-post-id=\"162\" class=\"insert-page insert-page-162 \"><span class=\"span-reading-time rt-reading-time\" style=\"display: block;\"><span class=\"rt-label rt-prefix\">Tempo estimado de leitura: <\/span> <span class=\"rt-time\"> 14<\/span> <span class=\"rt-label rt-postfix\">minutos<\/span><\/span><div style=\"margin-top: 85px;margin-bottom: 40px;padding: 0px 15px 0px 15px\">\n<h4 style=\"text-align: center !important\">Newsletter Apartes<\/h4>\n<center>Receba nossa newsletter em seu e-mail<\/center>\r\n<p><div class=\"tnp tnp-subscription \">\n<form method=\"post\" action=\"https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-admin\/admin-ajax.php?action=tnp&amp;na=s\">\n<input type=\"hidden\" name=\"nlang\" value=\"\">\n<div class=\"tnp-field tnp-field-firstname\"><label for=\"tnp-1\">Nome<\/label>\n<input class=\"tnp-name\" type=\"text\" name=\"nn\" id=\"tnp-1\" value=\"\" placeholder=\"\" required><\/div>\n<div class=\"tnp-field tnp-field-email\"><label for=\"tnp-2\">E-mail<\/label>\n<input class=\"tnp-email\" type=\"email\" name=\"ne\" id=\"tnp-2\" value=\"\" placeholder=\"\" required><\/div>\n<div class=\"tnp-field tnp-field-button\" style=\"text-align: left\"><input class=\"tnp-submit\" type=\"submit\" value=\"Fazer cadastro\" style=\"\">\n<\/div>\n<\/form>\n<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div style=\"font-size: .8em;text-align: center;padding: 0px 15px 20px 15px\"><b>J\u00e1 se cadastrou, mas n\u00e3o est\u00e1 recebendo a newsletter?<br \/>\n<\/b>Acesse sua caixa de spam ou lixo eletr\u00f4nico, selecione o e-mail e marque o remetente como confi\u00e1vel<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fausto Salvadori Filho | fausto@saopaulo.sp.leg.br Colabora\u00e7\u00e3o: Raphaella Magalh\u00e3es Salom\u00e3o Publicada originalmente em jan-jun\/2013 &#8211; edi\u00e7\u00e3o n\u00ba1 Am\u00e1vel leitor, quisera o autor da presente reportagem, que narra tempos idos e vividos da exist\u00eancia de Murillo Antunes Alves, emular o estilo daquele jornalista, cerimonialista e vereador. 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