{"id":52,"date":"2018-03-02T19:39:27","date_gmt":"2018-03-02T22:39:27","guid":{"rendered":"http:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/?p=52"},"modified":"2019-12-05T15:30:11","modified_gmt":"2019-12-05T18:30:11","slug":"pimentinha-da-brasilandia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/pimentinha-da-brasilandia\/","title":{"rendered":"Pimentinha da Brasil\u00e2ndia"},"content":{"rendered":"<span class=\"span-reading-time rt-reading-time\" style=\"display: block;\"><span class=\"rt-label rt-prefix\">Tempo estimado de leitura: <\/span> <span class=\"rt-time\"> 10<\/span> <span class=\"rt-label rt-postfix\">minutos<\/span><\/span><p><strong>Gisele Machado<\/strong>\u00a0| gisele@saopaulo.sp.leg.br<br \/>\n<strong>Renata Oliveira<\/strong>\u00a0| renata.olliver@live.com<\/p>\n<h6><strong>Publicada originalmente em jul-dez\/2017 &#8211; edi\u00e7\u00e3o n\u00ba25<\/strong><\/h6>\n<p>De S\u00e3o Joaquim da Barra (SP), onde nasceu em 1947, Tereza Cristina de Souza Lajolo guardou o sotaque e outras lembran\u00e7as. O destino comum \u00e0 maioria das garotas daquela \u00e9poca \u2013 casar-se cedo, estudar pouco e se dedicar apenas \u00e0s tarefas dom\u00e9sticas \u2013 ela rejeitou: com o empurr\u00e3o da m\u00e3e, sua primeira grande parceira, foi para S\u00e3o Paulo no primeiro dia do ano de 1966 para fazer hist\u00f3ria na pol\u00edtica da cidade.<\/p>\n<p>Filha ca\u00e7ula de Olga Polito de Souza e Joaquim de Souza (Tereza tem outras duas irm\u00e3s, Heloiza e Angela, e um irm\u00e3o, Djalma), foi a \u00faltima a ser enviada \u00e0 capital. O pai considerava mais adequado que fosse \u00e0 \u201cescola normal\u201d, curso de n\u00edvel m\u00e9dio para formar professores, e depois se casasse. \u201cMinha m\u00e3e tinha uma cabe\u00e7a muito evolu\u00edda. Voc\u00ea v\u00ea pela data em que ela me mandou pra S\u00e3o Paulo\u201d, lembra Tereza, aos risos. \u201cSentei no quarto do pensionato e pensei: ou vai ou racha, tem que tocar pau na vida\u201d.<\/p>\n<p>Decidiu come\u00e7ar a vida na nova cidade fazendo um curso preparat\u00f3rio para vestibular. Para encontrar o local, tinha apenas um papelzinho rabiscado pelo cunhado, com o endere\u00e7o e sem mais orienta\u00e7\u00f5es. Matriculou-se, fez um m\u00eas de cursinho e foi aprovada em Geografia na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). A ideia inicial era estudar Geologia, como o irm\u00e3o, mas naquela \u00e9poca ouvia que mulher n\u00e3o era bem-vinda em \u201cpesquisa no mato\u201d. Escolheu Geografia porque poderia aprender sobre Geologia, tamb\u00e9m. Do professor Aziz Ab\u2019Saber,\u00a0recebeu mais um motivo para continuar: ele viu nela o \u201cesp\u00edrito de busca\u201d necess\u00e1rio a todo ge\u00f3grafo.<\/p>\n<h3>TANQUES DE GUERRA<\/h3>\n<p>Esse esp\u00edrito fez Tereza sugerir uma pesquisa, no segundo ano da Geografia, que a transformaria em assistente da professora Regina Sader. Com ajuda de mais duas alunas, o quarteto come\u00e7ou a estudar sobre a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho no campo em S\u00e3o Joaquim da Barra, onde as planta\u00e7\u00f5es de caf\u00e9 davam lugar \u00e0 cultura de soja e cria\u00e7\u00e3o de gado. A pesquisa, no entanto, nunca seria conclu\u00edda: em 1968 os policiais do regime militar invadiram a casa de uma das participantes e apreenderam todas as informa\u00e7\u00f5es levantadas, sob suspeita de que compunham uma a\u00e7\u00e3o de guerrilha.<\/p>\n<p>A pesquisa n\u00e3o era remunerada, mas dava a Tereza o direito de comer sem pagar no restaurante do Crusp, o conjunto residencial da USP para estudantes de baixa renda. Sem essa ajuda extra, ela foi atr\u00e1s de trabalho e virou professora substituta numa escola p\u00fablica. No fim do ano, por\u00e9m, teve de devolver o posto \u00e0 professora titular. Estava sem sal\u00e1rio e desalojada: ela e todos os moradores do Crusp, local de viv\u00eancia pol\u00edtica, cultural e de resist\u00eancia \u00e0 ditadura, foram expulsos pelo Ex\u00e9rcito a poucos dias do Natal.<\/p>\n[aesop_chapter bgtype=&#8221;img&#8221; full=&#8221;on&#8221; img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/03\/lajolo_erundina2.jpg&#8221; video_autoplay=&#8221;on&#8221; bgcolor=&#8221;#888888&#8243; revealfx=&#8221;inplace&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221;]\n<p class=\"legenda\">PARCERIA &#8211; No primeiro ano como vereadora, com a colega parlamentar Luiza Erundina &#8211;<br \/>\nFoto: Acervo\/CMSP<\/p>\n\n\n<p>\u201cOs policiais apareceram com tanques de guerra apontados pra cada pr\u00e9dio do Crusp, com cavalaria, cachorro, metralhadora\u201d, conta Tereza. Os alunos foram levados ao hoje desativado pres\u00eddio Tiradentes, de onde a estudante e a maioria dos\u00a0colegas sa\u00edram sem ser fichados. N\u00e3o puderam, por\u00e9m, voltar a viver no Crusp, e Tereza foi morar com a irm\u00e3. Em 1969, precisando \u201cmais do que nunca\u201d de um emprego, conseguiu trabalho em uma escola estadual do bairro Brasil\u00e2ndia, na zona norte. \u201cUma das estradas, a do Sab\u00e3o, era de terra, tudo derrapando, no escuro, sem luz, e o que tinha dos dois lados eram pequenas ch\u00e1caras\u201d, lembra.<\/p>\n<p>Terminou a gradua\u00e7\u00e3o em 1972, casou e se mudou para a Brasil\u00e2ndia com o ent\u00e3o marido, o engenheiro Roberto Lajolo. \u201cAcabei com a Geografia ou a Geografia acabaria comigo\u201d, brinca Tereza, ao lembrar que demorou a se formar por ter participado do movimento estudantil. A motiva\u00e7\u00e3o para essa e outras milit\u00e2ncias de esquerda teve origem em suas ra\u00edzes cat\u00f3licas, num contexto de forte influ\u00eancia da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, uma corrente surgida durante os anos 60 na Am\u00e9rica Latina, marcada pelo engajamento nas quest\u00f5es sociais. \u201cA Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o buscava fazer com que o povo, a popula\u00e7\u00e3o e os trabalhadores compreendessem\u00a0seu papel e significado na sociedade e lutassem por eles, assim como Jesus foi uma pessoa com hist\u00f3ria de luta pelos desprovidos, que precisavam ter a no\u00e7\u00e3o de sua import\u00e2ncia\u201d, conta.<\/p>\n<h3>CHUVEIRADA<\/h3>\n<p>Em 1980, passou em um concurso e virou professora efetiva da rede estadual na Brasil\u00e2ndia. L\u00e1, fincaria ra\u00edzes e aprofundaria sua milit\u00e2ncia pol\u00edtica, principalmente ao se envolver nas demandas do bairro e dos clubes de m\u00e3es, em que mulheres debatiam sobre sua import\u00e2ncia na sociedade. \u201cA mulherada era dona de casa, lavava, passava, arrumava, cuidava da sa\u00fade de toda a fam\u00edlia, mas pensava que n\u00e3o fazia nada\u201d, diz Tereza, que criou alguns clubes na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Os clubes de m\u00e3es iam al\u00e9m de fortalecer a consci\u00eancia feminina. Juntas, as mulheres de 35 vilas dos arredores lutaram pelo acesso \u00e0 \u00e1gua encanada, por exemplo. \u201cLembro de um marido que implicava quando sua esposa ia \u00e0s reuni\u00f5es. At\u00e9 o dia em que chegou \u00e1gua \u00e0 casa deles, ela engatou uma mangueira e deu uma chuveirada nele, na rua\u201d, conta Tereza.\u201cO povo ficou todo feliz, e ele come\u00e7ou a apoiar\u201d, lembra.<\/p>\n<p>\u201cPara as mulheres da Brasil\u00e2ndia ela era a Pimentinha, estava sempre \u00e0 frente do movimento, sempre ao lado das mulheres, que a sentiam como presen\u00e7a efetiva\u201d, diz Fermino Fechio. Militante de direitos humanos e ex-ouvidor nacional de Direitos Humanos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, ele foi vereador junto com Tereza e tamb\u00e9m foi secret\u00e1rio de Administra\u00e7\u00e3o municipal quando ela comandou a Secretaria de Transportes em 1989, no governo de Luisa Erundina.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca em que Fechio come\u00e7ou a se envolver nos movimentos populares na Brasil\u00e2ndia e bairros vizinhos, ouvia o nome de Tereza \u201creinar nas bocas das mulheres\u201d. \u201cEra uma \u00e9poca dif\u00edcil, em que n\u00e3o havia democracia, est\u00e1vamos em pleno regime militar e t\u00ednhamos que fazer tudo com muito jeito e cuidado, porque vinha repress\u00e3o do\u00edda\u201d, lembra o ex-vereador. As atividades da professora renderam, inclusive, v\u00e1rias anota\u00e7\u00f5es no Departamento Estadual de Ordem Pol\u00edtica e Social de S\u00e3o Paulo (Deops-SP), a pol\u00edcia de intelig\u00eancia e repress\u00e3o aos opositores do regime militar.<\/p>\n<p>Para Fechio, a popula\u00e7\u00e3o reconhecia a coragem de Lajolo em forma de votos. Na primeira vez em que concorreu a um cargo p\u00fablico, em 1982, a mulher que at\u00e9 ent\u00e3o se considerava uma \u201cprofessorinha da Brasil\u00e2ndia\u201d foi eleita para a C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo (CMSP) com mais de 26 mil votos. \u201cEu n\u00e3o era conhecida nesse mundo maior. Meu marido era quem ia para os contatos pol\u00edticos externos\u201d, diz Tereza.<\/p>\n\n<div class=\"infografico-desktop\">\n[aesop_gallery id=&#8221;45&#8243; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221;]\n<\/div>\n<div class=\"infografico-mobile\">\n[aesop_gallery id=&#8221;8500&#8243; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221;]\n<\/div>\n\n\n<p>A candidatura foi proposta pelos moradores da regi\u00e3o. \u201cA gente fazia impress\u00e3o em casa, dobrava papel, e o pessoal do bairro ajudava\u201d, lembra Luisa Lajolo, 36 anos, filha mais nova de Tereza. A professora concorreu pelo rec\u00e9m-criado Partido dos Trabalhadores (PT), mas n\u00e3o esperava ser eleita, muito menos com 33 votos a\u00a0mais do que Luiza Erundina, que em 1988 tornou-se prefeita de S\u00e3o Paulo pela mesma legenda: \u201cquando saiu o resultado tomei um susto\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Tereza e Erundina, a bancada petista daquela legislatura contava com a jornalista e militante feminista Irede Cardoso e dois metal\u00fargicos: Claudio Barroso e Jo\u00e3o Carlos Alves. \u201cTereza tinha muito o esp\u00edrito da primeira bancada do PT na C\u00e2mara\u201d, relata Rita Freire, ex-assessora da parlamentar. \u201cAs pessoas vinham da milit\u00e2ncia, da resist\u00eancia \u00e0 ditadura, com princ\u00edpios muito arraigados e a ideia de atuar na institui\u00e7\u00e3o para promover mudan\u00e7as, principalmente para ajudar que os movimentos populares se organizassem para assumir espa\u00e7o na pol\u00edtica\u201d, completa.<\/p>\n<p>Como reflexo do relacionamento com as m\u00e3es da periferia, o gabinete de Tereza era majoritariamente composto por mulheres. Nos dois primeiros anos na CMSP, integrou uma comiss\u00e3o que defendeu creches nos locais de trabalho das m\u00e3es, para que pudessem amamentar com mais frequ\u00eancia e tranquilidade. No Plen\u00e1rio, avisou que n\u00e3o sossegaria enquanto n\u00e3o estivessem garantidos na sociedade espa\u00e7o, respeito e direitos das mulheres, e que essa busca impediria sua passividade diante dos \u201cjogos de cavalheiros\u201d: \u201cespera-se, talvez, das mulheres, que ajudemos nossos filhos e maridos a serem os melhores, os mais qualificados para atuar nessa modernidade onde n\u00e3o h\u00e1 lugar para todos, a come\u00e7ar para n\u00f3s mesmas\u201d, disse num discurso em 1994.<\/p>\n\n\n\n\n\n[aesop_image img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/03\/lajolo_plenario.jpg&#8221; credit=&#8221;Foto: Acervo\/CMSP&#8221; alt=&#8221;FIGUR\u00d5ES \u2013 No Plen\u00e1rio, em 1986, Tereza Lajolo entrega o T\u00edtulo de Cidad\u00e3o Paulistano ao hoje deputado federal Vicentinho, observada por Lula (\u00e0 esq.)&#8221; align=&#8221;right&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; caption=&#8221;FIGUR\u00d5ES \u2013 No Plen\u00e1rio, em 1986, entrega o T\u00edtulo de Cidad\u00e3o Paulistano ao hoje deputado federal Vicentinho, observada por Lula (\u00e0 esq.)&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n\n\n\n<h3>DA GEOGRAFIA PARA A HIST\u00d3RIA<\/h3>\n<p>No segundo dia na C\u00e2mara, a petista pediu, com outros vereadores\u00a0estreantes, a instala\u00e7\u00e3o de duas Comiss\u00f5es Parlamentares de Inqu\u00e9rito (CPI), uma delas sobre Transportes. Como membro, aprofundou-se sobre o assunto e repassava o conhecimento aos movimentos de cidad\u00e3os, para que soubessem brigar por seus interesses. \u201cQuando o povo ia falar nas audi\u00eancias p\u00fablicas com o secret\u00e1rio de Transportes e mostrava dom\u00ednio do assunto, ele j\u00e1 sabia que eu tinha passado por l\u00e1\u201d, lembra. \u201cO pessoal fiscalizava e achava as trampolinagens; muita coisa come\u00e7ou a ser tocada.\u201d<\/p>\n<p>Em 1988, Tereza havia sido escolhida pelos colegas como uma das melhores vereadoras da C\u00e2mara, segundo publicou o jornal Folha de S. Paulo na \u00e9poca, muito por conta de sua fiscaliza\u00e7\u00e3o dos transportes na cidade e sua cr\u00edtica aos aumentos nas passagens de \u00f4nibus. Como secret\u00e1ria municipal, encontrou apenas \u201c\u00f4nibus velhos, batendo lata, sem sequer um parafuso na reposi\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as\u201d, recorda o colega Fermino Fechio. Para reposi\u00e7\u00e3o, havia s\u00f3 um\u00a0pneu recauchutado.<\/p>\n<p>Essa precariedade fez com que Tereza tivesse de aumentar o valor das passagens, mesmo a prefeita Luiza Erundina tendo prometido dar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o uma tarifa social. A secret\u00e1ria esperava resolver o problema\u00a0ao estatizar os transportes coletivos, mas n\u00e3o teve tempo para isso: ap\u00f3s nove meses, retomou seu mandato na CMSP. Ela diz n\u00e3o ter recebido uma explica\u00e7\u00e3o para a demiss\u00e3o.<\/p>\n<p>No Legislativo paulistano, em outubro de 1990 assumiu a relatoria da CPI sobre a vala de Perus. Escreveu o relat\u00f3rio e ajudou a investigar a origem e a responsabilidade por ossadas encontradas em uma vala clandestina no cemit\u00e9rio Municipal Dom Bosco, no bairro Perus, e a utiliza\u00e7\u00e3o dos demais cemit\u00e9rios de S\u00e3o Paulo para ocultamento de corpos das v\u00edtimas da repress\u00e3o no Pa\u00eds.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o da CPI foi motivada pela descoberta, no Dom Bosco, de mais de mil ossadas n\u00e3o identificadas de pessoas enterradas como indigentes. A Comiss\u00e3o constatou, entre outras coisas, que o plano do regime era construir um cremat\u00f3rio no cemit\u00e9rio de Perus, mas sem sala de cerim\u00f4nias e com porta de acesso no formato vai-e-vem. Isso fez com que a empresa respons\u00e1vel pela obra\u00a0suspeitasse da constru\u00e7\u00e3o. Diante do impedimento, tentaram transportar as ossadas para o cremat\u00f3rio de Vila Alpina, inaugurado em 1974, mas a dificuldade log\u00edstica motivou a cria\u00e7\u00e3o da vala em Perus. \u201cAbrimos espa\u00e7o para informa\u00e7\u00f5es como as do Instituto M\u00e9dico Legal, e demonstramos que registravam como confronto com a pol\u00edcia, por exemplo, as mortes que, pela foto, pareciam ter sido causadas por tortura\u201d, aponta Tereza.<\/p>\n\n[aesop_image img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/03\/crime_vala_de_perus.jpg&#8221; credit=&#8221;Foto: Acervo CMSP&#8221; align=&#8221;left&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; caption=&#8221;CRIME &#8211; Vala de Perus, ao fundo, investigada por CPI da qual Tereza foi relatora&#8221; captionposition=&#8221;left&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n\n\n\n<p>Fruto de uma apura\u00e7\u00e3o dedicada, o relat\u00f3rio concluiu a maior investiga\u00e7\u00e3o, at\u00e9 aquele momento, sobre os crimes da ditadura no Brasil, conforme aponta o livro Vala clandestina de Perus. \u201cAt\u00e9 ali, o desaparecimento de pessoas, os falsos tiroteios e atropelamentos, as marcas da tortura e dores da perda pertenciam apenas ao universo dos familiares, sobreviventes, amigos, integrantes de movimentos\u00a0de direitos humanos e, tamb\u00e9m, a parte da imprensa silenciada ou parceira do regime\u201d, diz um dos textos que apresenta a publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Durante o inqu\u00e9rito, o jornalista Ivan Seixas, filho de um desaparecido pol\u00edtico e colaborador da CPI de Perus, ficou frente a frente com o assassino de seu pai, Joaquim Alencar Seixas, morto em abril de 1971 e o primeiro militante de esquerda encontrado como indigente no ent\u00e3o rec\u00e9m-inaugurado cemit\u00e9rio Dom Bosco. Ivan ressalta que o relat\u00f3rio de Tereza virou base para as comiss\u00f5es da verdade brasileiras, que procuraram elucidar as viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos durante a ditadura militar. \u201cCoordenei a comiss\u00e3o do governo paulista e muito do relat\u00f3rio foi baseado no da CPI de Perus\u201d, conta o jornalista.<\/p>\n<p>O ex-vereador \u00cdtalo Cardoso, membro da comiss\u00e3o de inqu\u00e9rito\u00a0sobre Perus, considera que nesse trabalho Tereza deu sua maior contribui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica: \u201co papel dela e da assessoria, de muita firmeza sobre o que queriam, ficou marcado no material que ela produziu e foi ponto de partida pra muito do que se falou em Bras\u00edlia, no processo da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade\u201d. Ele afirma que poucos trabalhos tiveram a mesma intensidade e ousadia, porque haviam se passado apenas cinco anos desde o fim do regime militar. \u201cA investiga\u00e7\u00e3o incomodava muita gente que vinha do per\u00edodo da ditadura e estava ali, presente\u201d, refor\u00e7a a ex-assessora Rita Freire, respons\u00e1vel por ajudar a redigir e editar o relat\u00f3rio da comiss\u00e3o.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio de Perus foi ainda ponto de partida para os trabalhos da Comiss\u00e3o da Verdade Vladimir Herzog, da CMSP, e motivou o convite do ex-prefeito Fernando Haddad para que Tereza coordenasse a Comiss\u00e3o da Mem\u00f3ria e Verdade da Prefeitura de S\u00e3o Paulo. \u201cNa Comiss\u00e3o do Executivo, Lajolo teve o papel fundamental de desvendar tantas atrocidades, abusos e persegui\u00e7\u00f5es realizadas no \u00e2mbito da administra\u00e7\u00e3o municipal e de outros n\u00edveis durante a ditadura militar\u201d, avalia o vereador Eduardo Suplicy (PT), que conhece a ge\u00f3grafa desde a funda\u00e7\u00e3o do PT.<\/p>\n\n\n\n\n\n\n\n[aesop_video width=&#8221;100%&#8221; align=&#8221;center&#8221; src=&#8221;youtube&#8221; id=&#8221;tOOqXCqtjVQ&#8221; disable_for_mobile=&#8221;on&#8221; loop=&#8221;off&#8221; autoplay=&#8221;on&#8221; controls=&#8221;on&#8221; viewstart=&#8221;on&#8221; viewend=&#8221;on&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221;]\n<h3>AULAS E BIJUTERIAS<\/h3>\n<p>Tereza foi vereadora titular na C\u00e2mara paulistana por 14 anos, de 1983 a 1996. Daqueles tempos, a filha mais\u00a0 velha, Mariana Lajolo, 39 anos, lembra que a m\u00e3e trabalhava at\u00e9 tarde: \u201cmuito en\u00e9rgica, minha m\u00e3e n\u00e3o se intimidava por aqueles homens poderosos, e conseguiu estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o de trabalho respeitosa com todos eles, sem deixar de ser a mulher alegre, que fazia piada\u201d.<\/p>\n<p>Depois de tantas vit\u00f3rias, conviveu com algumas derrotas em elei\u00e7\u00f5es para vereadora e para deputada estadual. Para Luisa Lajolo, a m\u00e3e esteve aberta a tantas causas que pode n\u00e3o ter garantido a necess\u00e1ria \u201cbandeira eleitoral\u201d. Mesmo sem vencer, Tereza achava que s\u00f3 o processo eleitoral j\u00e1 valia a pena: \u201ccampanha era um momento efetivo de fazer discuss\u00e3o pol\u00edtica, entrar em contato com as pessoas e ajudar no processo de entenderem a realidade\u201d.<\/p>\n<a href=\"https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/03\/INFO_saladeaula.gif\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-30 size-full\" src=\"https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/03\/INFO_saladeaula.gif\" alt=\"Tereza Lajolo - linha do tempo - Arte: Erick Paulino\/CMSP\" width=\"1300\" height=\"1061\" \/><\/a>\n<p class=\"legenda\" style=\"margin-top: 0px !important\">Arte: Erick Paulino\/CMSP<\/p>\n<p>Para estimular o debate, em 1996 foi pr\u00e9-candidata do PT \u00e0 Prefeitura de S\u00e3o Paulo, junto com Luiza Erundina e Aloizio Mercadante. Com o t\u00edtulo N\u00e3o desiste, o Di\u00e1rio Popular publicou uma nota sobre a insist\u00eancia de Lajolo: \u201cela vai apresentar recurso \u00e0 executiva estadual do PT, contra a decis\u00e3o do diret\u00f3rio municipal de n\u00e3o aceitar a sua pr\u00e9-candidatura\u201d. A ex-vereadora explica por que aceitou o desafio: \u201csempre estive \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para tomar atitudes diante da realidade. Sempre. Eu n\u00e3o nego, nunca me neguei\u201d.<\/p>\n<p>De 1999 a 2000, voltou \u00e0 CMSP como suplente. Quando n\u00e3o estava na C\u00e2mara, dava aulas e tamb\u00e9m\u00a0j\u00e1 vendeu bijuterias para complementar a renda. Lembra-se do sobrenome de praticamente todos os alunos. Uma delas \u00e9 Thatiana Galante, que teve aulas com Tereza em 1997. \u201cEla era engra\u00e7ada, brincava e brigava de forma carinhosa, falava alto, tinha um erre marcado e nunca fez campanha pol\u00edtica com a gente\u201d, recorda-se Thatiana.<\/p>\n<p>Aposentada como professora desde 2001, prestou outro concurso quatro anos depois e voltou a dar aulas na Brasil\u00e2ndia. Aposentou-se pela segunda vez em 2015. \u201cNingu\u00e9m acreditava que uma pessoa t\u00e3o importante para a pol\u00edtica da cidade voltaria a ser professora, porque teria outros pap\u00e9is a cumprir e tamb\u00e9m porque a m\u00e1quina p\u00fablica costuma tirar a pessoa da realidade de onde ela vem, o que torna a readapta\u00e7\u00e3o dif\u00edcil\u201d, diz a ex-assessora Rita Freire.<\/p>\n\n\n\n\n\n[aesop_image img=&#8221;https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-content\/uploads\/sites\/26\/2018\/03\/lajolo_familia_atual.jpg&#8221; credit=&#8221;Foto: Arquivo pessoal&#8221; align=&#8221;right&#8221; lightbox=&#8221;on&#8221; caption=&#8221;FAM\u00cdLIA &#8211; Com as filhas Luisa (esq.), Mariana e o neto, Lucas, em 2017&#8243; captionposition=&#8221;center&#8221; revealfx=&#8221;off&#8221; overlay_revealfx=&#8221;off&#8221; text_float=&#8221;off&#8221;]\n<p>Na volta ao Magist\u00e9rio, Tereza encontrou algumas rea\u00e7\u00f5es que n\u00e3o esperava, como o deboche de alunos por ser idosa. Ainda assim, gostava tanto de ser professora que se sentia apenas licenciada da profiss\u00e3o enquanto foi vereadora. Por isso se esfor\u00e7ou para levar \u00e0 C\u00e2mara uma rela\u00e7\u00e3o direta com o povo, sem intermedi\u00e1rios, como fazia com os alunos. \u201cQueremos a popula\u00e7\u00e3o l\u00e1, exigindo. Acabar com essa hist\u00f3ria de \u2018senhor vereador\u2019, com o clientelismo\u201d, disse ao Jornal da Tarde assim que entrou para o Parlamento.<\/p>\n<p>O jornal a descreveu como baixinha, inquieta, de sotaque caipira, disposta a dar voz \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es populares. A defini\u00e7\u00e3o continua valendo. Uma de suas inquieta\u00e7\u00f5es mais fortes, atualmente, \u00e9 a facilidade com que v\u00edtimas de viol\u00eancia ainda podem ser enterradas como indigentes na capital. O inc\u00f4modo remete a um discurso feito por ela quando integrava a CPI de Perus: \u201cn\u00e3o \u00e9 apenas o passado que nos aflige. O autoritarismo n\u00e3o \u00e9 coisa encerrada e escolhe formas para sobreviver\u201d.<\/p>\n\n\n<h3><span style=\"color: #800000\"><strong>SAIBA MAIS<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><strong>Livro<br \/>\n<\/strong><em>Vala clandestina de Perus<\/em>. Instituto Macuco. Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, 2012.<\/p>\n<div data-post-id=\"162\" class=\"insert-page insert-page-162 \"><span class=\"span-reading-time rt-reading-time\" style=\"display: block;\"><span class=\"rt-label rt-prefix\">Tempo estimado de leitura: <\/span> <span class=\"rt-time\"> 10<\/span> <span class=\"rt-label rt-postfix\">minutos<\/span><\/span><div style=\"margin-top: 85px;margin-bottom: 40px;padding: 0px 15px 0px 15px\">\n<h4 style=\"text-align: center !important\">Newsletter Apartes<\/h4>\n<center>Receba nossa newsletter em seu e-mail<\/center>\r\n<p><div class=\"tnp tnp-subscription \">\n<form method=\"post\" action=\"https:\/\/homolog.saopaulo.sp.leg.br\/apartes\/wp-admin\/admin-ajax.php?action=tnp&amp;na=s\">\n<input type=\"hidden\" name=\"nlang\" value=\"\">\n<div class=\"tnp-field tnp-field-firstname\"><label for=\"tnp-1\">Nome<\/label>\n<input class=\"tnp-name\" type=\"text\" name=\"nn\" id=\"tnp-1\" value=\"\" placeholder=\"\" required><\/div>\n<div class=\"tnp-field tnp-field-email\"><label for=\"tnp-2\">E-mail<\/label>\n<input class=\"tnp-email\" type=\"email\" name=\"ne\" id=\"tnp-2\" value=\"\" placeholder=\"\" required><\/div>\n<div class=\"tnp-field tnp-field-button\" style=\"text-align: left\"><input class=\"tnp-submit\" type=\"submit\" value=\"Fazer cadastro\" style=\"\">\n<\/div>\n<\/form>\n<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div style=\"font-size: .8em;text-align: center;padding: 0px 15px 20px 15px\"><b>J\u00e1 se cadastrou, mas n\u00e3o est\u00e1 recebendo a newsletter?<br \/>\n<\/b>Acesse sua caixa de spam ou lixo eletr\u00f4nico, selecione o e-mail e marque o remetente como confi\u00e1vel<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tereza Lajolo, a &#8220;Pimentinha da Brasil\u00e2ndia&#8221; &#8211; Personagem central na primeira investiga\u00e7\u00e3o oficial sobre crimes da ditadura no Brasil, ela fez hist\u00f3ria nos direitos humanos<\/p>\n","protected":false},"author":109,"featured_media":42,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"coauthors":[],"class_list":["post-52","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-perfil"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.4 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\r\n<title>Tereza Lajolo - ex-vereadora foi relatora da CPI da vala de Perus - Apartes<\/title>\r\n<meta name=\"description\" content=\"Tereza Lajolo, personagem central na primeira investiga\u00e7\u00e3o oficial sobre crimes da ditadura no Brasil, fez hist\u00f3ria nos direitos humanos. 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